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Retratos da Leitura - Leitor errante

 

A terceira edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil foi divulgada na semana passada(baixe aqui). Alguns números causaram preocupação: a diminuição dos números de leitores no Brasil. Mas muitas vezes as primeiras reações são otimistas ou pessimistas demais. Eu prefiro ver quais pontos me chamam mais a atenção. Começa assim, de acordo com a pesquisa, a definição de livros é:
 
 “Ao falar de livros, estamos falando de livros tradicionais, livros digitais/ eletrônicos, áudio livros digitais-daisy, livros em braile e apostilas escolares. Estamos excluindo manuais, catálogos, folhetos, revistas, gibis e jornais.” 
 
Não vejo problema nenhum em especificar o que é livro. Mas esta definição é um atraso. A definição de leitor não é “quem lê livros” e a de literatura não é o “o produto do livro”. Basta imaginar que se alguém lê uma série de capítulos em uma revista e não a versão livro do mesmo material, ou se lê crônicas publicadas em jornais e não uma coletânea com tais obras, ele deixa de ser leitor para a pesquisa. Esta é uma falha que mostra uma preocupação em definir literatura a partir de um formato editorial e não de um hábito cultural de leitura. 
 
A definição de leitor (aquele que leu um livro inteiro ou em partes nos últimos três meses), combinada com a definição de livros é também responsável pela queda de número de leitores, ou ao menos por produzir um resultado que pode ser questionável. Ela excluiu três suportes principais de leitura (revistas, jornais e gibis) e ainda não contempla leituras realizadas em blogs, redes sociais e e-mails. Todos esses homens são leitores e apenas se apóiam em formatos editorias diferente do livro (um que representa uma minoria história na literatura, especialmente se considerarmos os livros modernos). 
 
Isto mesmo, a própria pesquisa percebe que Revistas (53%) e Jornais (48%) são o suporte favorito do leitor brasileiro. (Histórias em quadrinhos é o 5th, com 30%). A pergunta: se o objetivo da pesquisa é determinar o perfil do leitor brasileiro, como ela apresenta uma definição de leitor que excluí o leitor brasileiro? 
 
Além disso, o brasileiro tem uma visão por demais utilitarista da literatura. Ignoro as perguntas sobre o sucesso financeiro de quem lê, que ao meu ver apenas constatam uma visão deturpada do leitor como sendo um alguém especial  e poderoso. Falo da visão da maioria sobre a leitura: 
 
Fonte de conhecimento para a vida (64%), Fonte de conhecimento e atualização profissional (41%), Fonte de conhecimento para a escola/faculdade (35%).
 
E apenas: 
 
28% dos entrevistados apenas gostam de ler durante as horas de lazer. 
 
É claro que a literatura deve proporcionar conhecimento, mas esse é um leitor interesseiro, procurando um “golpe do baú” e não uma relação amorosa. A literatura tem função prática quando olhamos os gêneros preferidos: 
 
Livros didáticos (66%) que só têm relação com o estudo.
Bíblia (65%) que demonstram a necessidade da fé religiosa e da participação em um grupo. Seguidos por Livros religiosos (57%) e pela mesma razão. 
Livros técnicos (56%) 
Livros Infantis (55%) que são usados para alfabetização. 
 
Uma vez que essas relações (aprendeu, consultou, rezou, alfabetizou) estão finalizadas, a leitura deixa de ser algo relevante e pode ser abandonada. A lista de autores não reflete com fidelidade o consumo, mas sim a popularidade e uma memória imediata, além de é claro, a boa vontade que considerou um português como Fernando Pessoa como um leitor brasileiro. É claro que é um anacronismo medir preferências de leitores atuais sem incluir todos os autores mundiais, mas é um anacronismo que reflete em muito a escolha das obras indicadas nas escolas, pois elas também procuram formar um leitor utilizando-se somente do material limitado do Brasil. Felizmente ao encontrarmos a lista de livros preferidos, a literatura mundial encontra seu lugar. 
 
Outra indicação do utilitarismo da leitura é o dado que revela o número ínfimo de pessoas que foram presenteadas por livros (60% dos leitores nunca foram presenteados com livros e 87% dos não leitores). Isso indica que livro não é visto como um artigo de luxo, como algo que impressiona ou que tem valor sentimental. É claro que a visão de 71% das bibliotecas como um lugar para estudar, 61% como um lugar para pesquisar e apenas 17% como sendo um lugar para emprestar livros de literatura é outro reflexo dessa visão utilitarista da literatura. 
 
O dado mais importante da razão levantada para a diminuição do hábito de leitura não é a Falta de interesse (78%), mas o Acesso (4%). E é na área do acesso que grande parte dos programas de incentivo à leitura (bibliotecas para todos, feiras, visitas escolares, programas nacionais de compras governamentais, diminuição do preço do livro) e esses fatores parecem ser irrelevantes para os entrevistados. Não é a falta de importância de uma biblioteca, mas estamos colocando os carros diante dos bois: não é por que o livro é mais caro que não temos leitores. E isso é ainda mais importante na medida em que professores se tornam cada vez mais responsáveis por influenciarem os novos leitores (45%). A queda da mãe (de 49% na pesquisa anterior para 43%) e do pai (de 30% para 17%) reflete a importância da leitura como hábito prático de estudo e menos de prazer cultural. Dos não leitores, 63% nunca viram a mãe lendo, contra 39% dos leitores e 68% dos não leitores nunca viam os pais lendo, contra 52% dentre os leitores.
 
O que fica é que no fundo, somos um país de músicos. Não vamos nos tornar leitores por vontade política ou por bom gosto. Estamos diante de uma dificuldade muito maior que é uma completa revolução nos hábitos nacionais em um país tão conservador como o nosso. Não que ser músicos é ruim, mas o investimento tem sido feito na ponta do iceberg. Nossa literatura simplesmente não tem poder transformador. Ela não consegue ser o carro chefe desta mudança. Falta qualidade entre os escritores, políticas editoriais diferentes, nada baseadas em estratégias de marketing, mas sim em qualidade e falta boa educação. Todos os outros programas são louváveis, mas deixar um livro ruim mais barato e levar alunos para assistir palestra de escritores medalhões que já estão há décadas no mercado sem causar nenhuma mudança, não formará leitores. É hora e a vez de detonar. 
 
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  • 10/04/2012 - Nadja Calábria
Adorei o artigo, muito triste ver que a quantidade de leitores diminuiu e que essa prática que deve começar em casa está cada vez mais ficando a cargo da Escola o que deflagra a prática da leitura utilitarista. Já que é a hora e a vez de detonar...que tal a Aletria lançar uma campanha de incentivo a leitura????



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