A voz elástica ou a expressividade da voz

Publicado: 04/05/2017

Começamos com alguns desafios. Responda em voz alta como é seu caminho até a padaria? Agora, também em voz alta, responda a mesma pergunta bem devagar, maaaais devagar, o maaaaaaaiiiiis devagar possível! Agora responda em voz alta, com a fala bem acelerada, como foi o dia de ontem? Pra encerrar: fale em alto e bom tom a letra de uma música, não cante! Recite! Mude as pausas, crie uma grande pausa! Brinque com o ritmo da fala, acelere as palavras, agora vá freando. Mude o timbre de sua voz, fale fininhozinho, agora bem grossão! Pronto. ;) 




Se você aceitou nossos desafios e foi até o final, pode ter sido um pouco engraçado, estranho, divertido ou revelador. Talvez você nunca tenha parado para prestar atenção na sua voz e seus elementos, mas isso faz parte do dia a dia de um contador de histórias. O contador de histórias é um brincante da voz! Ele brinca com a voz como quem brinca de elástico, e vai nos contando sobre uma infinidade de emoções. Ao combinar recursos vocais, como duração, frequência, intensidade, ritmo, articulação, timbre e respiração o contador pode nos levar para colher flores do campo ou para adentrar em uma embarcação à deriva num mar revolto.



Acima, o contador de histórias Marcelino Xibil. Foto: facebook de Xibil.

 

Pra ilustrar as possibilidades de performance da voz na contação de histórias, dois vídeos, não exatamente de contadores de histórias, mas de João Paiva, MC de Belo Horizonte, e de Sekuru Muradzikwa, tocador de chipendani e funcionário de um safári no Zimbábue. 

 

João Paiva, vencedor do último Poetry Slam Clube da Luta, competição em que poetas leem ou recitam um trabalho original, acelera e desacelera sua narração e deixa o público ligadão ao brincar com as palavras.  Ao recitar o poema “Devagar Escola”, que conta uma conversa entre estudante e professor, o MC vai acelerando a fala e criando uma tensão nessa discussão, onde o estudante entra  em um fluxo de consciência e de tempos em tempos pára pra respirar dizendo “...devagar escola”. Confira o vídeo abaixo:


 


O outro vídeo que o Blog da Aletria traz é do Sekuru Muradzikwa, tocador de chipendani do Zimbábue. O Chipendani é um arcomusical tradicional do Zimbábue. Composto basicamente por um arame e uma madeira envergada, o chipendani usa a cabeça do tocador como uma espécie de caixa de ressonância. Ao abrir e fechar a boca, e tocar o arame em diferentes locais, o tocador tira do chipendani um som mágico. Mais do que tocar o arcomusical, Sekuru intercala em sua apresentação solos do chipendani com a contação de pequenas histórias tradicionais de sua terra*. É bonito por demais ouvir como Sekuru combina seus recursos de voz com o som do arcomusical, que, de certa forma, também é vocal, para dar tanta expressividade às suas histórias e sua música. Confira o vídeo abaixo de Sekuru na Bow Conference – Durban, África do Sul, 2016.


 

*traduzimos abaixo uma das pequenas histórias que Sekuru costuma contar: 


Dois bodes se encontraram em uma pinguela estreita.

Nenhum queria voltar atrás para deixar o outro passar.

Então, esses bodes insensatos pensaram que a ponte era estreita por demais.

Um pouco mais tarde, outros dois bodes se encontraram na mesma ponte estreita.

Estes bodes eram mais espertos,

Um se ajoelhou

Enquanto o outro passou cuidadosamente sobre ele. 


Bem, e é claro que no nosso calendário de cursos e oficinas a VOZ não podia ficar de fora! Dia 19 e 20 de maio, Maria Cristina Ribeiro, professora de técnica vocal, fonoaudióloga e estudiosa da voz dos contadores de histórias rurais irá ministrar a oficina A voz do contador de histórias: cuidados, técnicas e expressividade. Que tal? Ah! Não precisa ser contador de histórias para participar da oficina, basta querer desenvolver sua voz cênica e ampliar suas possibilidades de expressão vocal. Entre em contato com a gente e faça sua inscrição. Mais informações abaixo:

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OFICINA: A voz do contador de histórias: cuidados, técnicas e expressividade, com Maria Cristina Ribeiro

Data: 19/5, das 19h às 22h e 20/5, das 9h às 12h (sexta e sábado)

Carga-horária: 6 horas

Público-alvo: Todos aqueles que por alguma razão queiram desenvolver a voz cênica e ampliar suas possibilidades de expressão vocal.

Ementa: O uso da voz do contador de histórias abrange dimensões físicas e emocionais. O contador de histórias precisa ter uma voz elástica para veicular uma infinidade de intenções e emoções. Para transmitir intenções, utilizamos várias combinações de recursos vocais, tais como duração, frequência, intensidade, ritmo, articulação, ressonância e respiração. Estas combinações são realizadas ao se pronunciar uma palavra isolada ou no decorrer da fala. Na organização do conjunto dos elementos vocais de uma fala, podemos usar pausas entre uma palavra e outra, dizer um conjunto de palavras rápida ou lentamente, iniciar uma frase em um tom mais agudo e terminar no grave, enfim, podemos dispor dos recursos vocais de várias formas e arranjá-los de maneira que transmitam nossas intenções o mais fielmente possível. Conjuntos arranjados com combinações de recursos vocais diferentes transmitem sentimentos diferentes. Para alcançar esta pluralidade de arranjos vocais, o contador de histórias precisa dominar seu aparelho fonador, conhecer e dominar as técnicas vocais e a poética da voz.

Professora: Maria Cristina Ribeiro é Fonoaudióloga, Especialista em Distúrbios da Comunicação e Mestre em Literatura pela Faculdade de Letras da UFMG, onde defendeu dissertação sobre a análise acústica da voz de contadores de histórias rurais.  Professora de Técnicas Vocais para Teatro e Performance Comunicativa.

Material: O aluno deve vir com roupa confortável que lhe permita livre movimentação.

Valor da inscrição: R$ 220,00 (duzentos reais). 

Inscrições: [email protected] / (31) 3296-7903 


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