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A invenção da criança e do livro infantil

Publicado: 12/10/2017
"Não se sabe bem quando tudo aconteceu.
Uns dizem que a primeira vez que foi contado já era um feito antigo, narrado por vozes infantis que caíam das árvores como folhas secas. Vozes de crianças abandonadas nos bosques, que comiam o que matavam, quando não eram elas a comida. Mas eu não acredito. Em tempos tão remotos as crianças não existiam."

(Contos da Meia-Noite do Mundo, de Rodolfo Castro)

Para comemorar o dia das crianças, o Blog da Aletria preparou um post super especial: uma linha do tempo sobre a invenção da infância e o surgimento dos primeiros livros pensados para os pequenos. A partir das obras "A Condenação de Emília" (Aletria), de Ilan Brenman, e "Para Ler o Livro Ilustrado" (Cosac Naify), de Sophie Van der Linden, alinhavamos alguns dos marcos da história que contribuíram para a construção do que hoje é entendido como nossa querida e importante "Infância".


E feliz dia das crianças! ;) 


Grécia Antiga | Séc IV e V a.C



- A educação era uma preocupação real dos antigos gregos e a infância existia como um período de preparação e formação do cidadão. Porém, mulheres, escravos, estrangeiros e crianças não tinham os mesmos direitos e deveres dos poucos privilegiados das aristocracias locais.

- 428 - 347 a.C: Platão cria sua primeira escola “Akademia"

- 384 - 322 a.C: Aristóteles funda sua própria escola, o Liceu. A educação seria o caminho necessário para atingir a maturidade intelectual e espiritual. Os gregos não inventaram a infância, mas lhe deram uma contribuição inestimável para seu reconhecimento mais de dois mil anos depois. 

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Império Romano




- Os artistas romanos dedicavam parte do seu tempo a representar a criança como um ser em desenvolvimento, imbuído de beleza e graça. Tal representação só retornaria no período do Renascimento.


- 374 d.C:  Somente em 374 da era cristã foi promulgada uma lei proibindo o infanticídio. Seria o início de uma ideia de infância protegida e cuidada pelos adultos.



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Idade Média 




- As comunidades medievais consideravam que a infância terminava aos sete anos. Essa idade representava o momento em que as crianças dominavam a linguagem oral.


- A representação da infância não fazia parte da arte medieval. No século XIII, as crianças eram representadas como miniaturas dos adultos.


Antes do séc XVI: Não eram encontrados livros sobre a criação de filhos, nem sobre pediatria. A concepção de escolarização como preparação para o mundo adulto era inexistente.

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Século XVI


Sofonisba Anguissola (c. 1532 – 16 November 1625)

- 1450: Johann Gutenberg, sem saber, contribuiu para o aparecimento da noção de infância no mundo. "Depois da prensa tipográfica, os jovens teriam de se tornar adultos e, para isso, teriam de aprender a ler, entrar no mundo da tipografia. E para realizar isso precisariam de educação. Portanto a civilização européia reinventou as escolas. E, ao fazê-lo, transformou a infância numa necessidade." (POSTMAN, 1994, p. 50)


- 1500: Com apenas 50 anos de invenção do prelo, já existiam 8 milhões de livros impressos no mundo!


- 1530: Buscando parâmetros para educação de uma criança, Erasmo de Rotterdam publica “Da civilidade em crianças”. Sucesso instantâneo, com 30 reedições nos primeiros 6 anos de sua publicação, o livro teve um total de 130 reedições e uma quantidade imensa de traduções. 


- Rei Henrique VIII (Inglaterra): Educação passou a ser considerada preocupação Régia. Já no século XVII, em 1660, haviam 444 escolas na Inglaterra, 1 a cada 19 km, 1 por 4.400 habitantes. 


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Século XVII



- A infância se transformou numa categoria social e intelectual, com isso as fases de desenvolvimento da criança começaram a ser notadas, estudadas e valorizadas. Nesse movimento da sociedade europeia em direção à criança, o vestuário infantil começou a se diferenciar do dos adultos e muitos livros de pediatria começaram a ser publicados. 


- Charles Perrault: É publicado Os Contos da Mãe Gansa, de Charles Perrault (1628 - 1703). Alguns estudiosos consideram Perrault como o percursor da literatura infantil.


- O mercado editorial descobriu o leitor infantil e juvenil. Obras literárias destinadas exclusivamente às crianças e jovens começaram a ser produzidas, impressas e vendidas. 


- 1693: John Locke publica “Pensamentos sobre a Educação”. Para Locke, a criança nascia com a mente comparada a uma folha em branco, uma tábula rasa. Por consequência, preencher, escrever essa folha em branco da melhor maneira possível, ficaria sob a responsabilidade de pais, professores e, mais adiante, governos.



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Século XVIII




- Na Inglaterra, muitos autores passam a se dedicar exclusivamente para obras infantis e juvenis. John Harris e John Marshall foram alguns desses percursores. 


- Até o fim do século XVIII , os livros eram ilustrados com as técnicas de Xilogravura ou gravura em metal. 


- J.J. Rousseau:  Para ele, a infância não era apenas um estágio de vida que deveria ser alimentado para alcançar a maturidade. A infância era importante como uma fase em si mesma, ou seja, uma época valorizada e única em nossa vida. Porém, o conceito de Rousseau que mais influenciou o pensamento ocidental foi o da infância como época da vida em que o ser humano mais se aproxima do “estado de natureza”. O mundo ocidental, pela primeira vez, começou a voltar seu olhar para virtudes infantis como pureza, espontaneidade, alegria, vitalidade, etc.


- Nos EUA aniversários infantis passam a ser comemorados.


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Século XIX





- 1835: Recorrendo à Recém-inventada litografia, o pedagogo Rodolphe Topffer, em Genebra, cria “Senhor Crépin”, que pode ser considerada como a primeira história em quadrinhos.


- 1862: “Desenvolvimento dos procedimentos de impressão possibilita que obras reunindo caracteres tipográficos e imagens na mesma página se multipliquem. O desejo de uma literatura especificamente destinada à infância, combinado aos avanços técnicos, permite a publicação na França de várias obras pensadas especialmente para o público infantil, como a obra "O dia da senhorita Lili”, Heizel, 1862. 



- 1899: Freud publica “A interpretação dos sonhos”.  Para Freud, a criança deveria reprimir e sublimar suas pulsões sexuais, assim estaria adentrando no mundo civilizado, ou seja, a mente não seria uma folha em branco, mas uma estrutura psíquica repleta de desejos conscientes e inconscientes. Porém, é a partir das interações na primeira infância, entre adulto e criança, que esta última irá se formar como adulto, ou seja, o ambiente interferiria no desenvolvimento infantil. 



- 1899:  O educador John Dewey publicou "A escola e a sociedade", afirmando que se deveria educar a criança não pensando no futuro dela, mas compreendendo a demanda infantil presente. Ela seria sujeito, e não objeto, de seu próprio desenvolvimento. É uma concepção revolucionária.


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Século XX





- 1919: É publicado “Macao et Cormage”, que marca a inversão da relação vigente de predominância do texto sobre a imagem no livro com ilustração.


- 1950-60: O editor Robert Deplore publica  obras em que os componentes formais participam juntos da expressão geral. “O fato de Delire levar em conta a materialidade do livro e o cuidado dispensado ao conjunto de seus componentes - até mesmo à tipografia, sobre a qual se debruça em especial - anunciam a importância do aspecto visual nos livros ilustrados contemporâneos.” (LINDEN)


- 1967: É publicado, na França, a obra-prima de Maurice Sendak: Onde Vivem os Monstros. O livro introduz uma nova concepção da imagem, que passa a permitir representar o inconsciente infantil.


- 1970: Projetos editoriais, como o de Ruy-Vidal e Harlin Quist, trazem imagens que rompem deliberamente com a funcionalidade pedagógica. Em face das imagens como “cópia do real” ou “suportes de aprendizado”, surge uma imagem “inesperada com inúmeras ressonâncias simbólicas.” (LINDEN)  


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