A paixão de dizer e a voz do contador de histórias

Publicado: 16/05/2017
A paixão de dizer / 1

Marcela esteve nas neves do Norte. Em Oslo, uma noite, conheceu uma mulher que canta e conta. Entre canção e canção, essa mulher conta boas histórias, e as conta espiando papeizinhos, como quem lê a sorte de soslaio.
Essa mulher de Oslo veste uma saia imensa, toda cheia de bolsinhos. Dos bolsos vai tirando papeizinhos, um por um, e em cada papelzinho há uma boa história para ser contada, uma história de fundação e fundamento, e em cada história há gente que quer tornar a viver por arte de bruxaria. E assim ela vai ressuscitando os esquecidos e os mortos; e das profundidades desta saia vão brotando as andanças e os amores do bicho humano, que vai vivendo, que dizendo vai. (Eduardo Galeano in O Livro dos Abraços, L&PM Editora).


É, alguém me contou que o bicho homem adora dizer. Dizer da vida, contar histórias... Os atos de falar e ouvir ocupam mais de três quartos do tempo das atividades de comunicação de uma pessoa comum, isso sem contar o rádio, a televisão, o cinema, as artes cênicas, o telefone e o celular. Agora, imagine um professor! Um palestrante! Um contador de histórias! Haja balangação de beiço! E para o gogó dar conta de tanta história, sem perder a expressividade, a preparação vocal é um dos pontos chave. Para o desenvolvimento das atividades de fala, deve-se levar em conta que falar se aprende. Isso significa que com prática, uma voz bem projetada e uma articulação clara podem substituir vozes mais fracas e articulações confusas.

Uma das etapas da preparação vocal e o aquecimento. A contadora de histórias Rosilda Figueiredo, que arrasa e a Aletria ama, tem umas dicas quentes de aquecimento vocal que você pode levar para a vida e usar ao acordar, antes de fazer uma importante apresentação, antes de ministrar uma aula e, é claro, antes de contar histórias! ;)

1) Trabalhando a língua

- Relaxe o maxilar inferiror abrindo a boca (sem forçar). Estique a língua para fora e para baixo, depois enrole a lingua para dentro e para cima. (3 vezes)
- Estale a língua. (coloque a lingua no céu da boca e solte fazendo estalos).
- Com a boca aberta, balance a língua para dentro e para fora, batendo-a nos lábios.
- Gire a língua dentro da boca, passando-a entre os dentes e os lábios, alternando os lados.



2) Caras e caretas

- Estique os lábios para frente para trás (beijocas e sorrisos).
- Contraia os cantos da boca com os dentes cerrados.
- Movimente o maxilar para a direita e para a esquerda.
- Boceje repetidamente.



3) Lubrificando as articulações com vibrações de língua e lábios

- Pronuncie o som "trrr", sem utilizar vogais.
- Repetir adicionando som de vogais (som laríngeo) - triii, truuu, treeee
- Promova agora a vibração dos lábios e bochechas (como um cavalo suspirando) - Brrrrr, sem utilizar vogais.
- Adicionar as vogais, usando um ciclo respiratório para cada vogal. 



E aí? Gostou?
Agora é só sair falando. O bicho humano, que vai vivendo, que dizendo vai...

Ilustração da capa: ilustra de Sergio Magno para o livro "Nos Passos de Cascaes", de Juliana Dalla, Ed. Aletria. 
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Quer aprender mais? Se liga no curso abaixo! ;) 



Público-alvo: Todos aqueles que por alguma razão queiram desenvolver a voz cênica e ampliar suas possibilidades de expressão vocal.

Ementa: O uso da voz do contador de histórias abrange dimensões físicas e emocionais. O contador de histórias precisa ter uma voz elástica para veicular uma infinidade de intenções e emoções. Para transmitir intenções, utilizamos várias combinações de recursos vocais, tais como duração, frequência, intensidade, ritmo, articulação, ressonância e respiração. Estas combinações são realizadas ao se pronunciar uma palavra isolada ou no decorrer da fala. Na organização do conjunto dos elementos vocais de uma fala, podemos usar pausas entre uma palavra e outra, dizer um conjunto de palavras rápida ou lentamente, iniciar uma frase em um tom mais agudo e terminar no grave, enfim, podemos dispor dos recursos vocais de várias formas e arranjá-los de maneira que transmitam nossas intenções o mais fielmente possível. Conjuntos arranjados com combinações de recursos vocais diferentes transmitem sentimentos diferentes. Para alcançar esta pluralidade de arranjos vocais, o contador de histórias precisa dominar seu aparelho fonador, conhecer e dominar as técnicas vocais e a poética da voz.

Professora: Maria Cristina Ribeiro é Fonoaudióloga, Especialista em Distúrbios da Comunicação e Mestre em Literatura pela Faculdade de Letras da UFMG, onde defendeu dissertação sobre a análise acústica da voz de contadores de histórias rurais.  Professora de Técnicas Vocais para Teatro e Performance Comunicativa.

Material: O aluno deve vir com roupa confortável que lhe permita livre movimentação.


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