ALETRIA entrevista Ana Paula Paiva | Aletria

ALETRIA entrevista Ana Paula Paiva

Publicado: 06/02/2017

Ana Paula Paiva e o livro-brinquedo

No próximo dia 11, a Aletria abre as portas para a oficina “Produçãode livros artísticos e lúdicos a partir de materiais acessíveis”. E quem vai conduzir os participantes na criação dessas obras é a Doutora em Educação e Inclusão Social, Ana Paula Paiva. Ela deu uma passadinha aqui no Blog da Aletria para convidar todo mundo para o curso e conversou com a gente sobre as potencialidades do livro-brinquedo, sua importância na formação do leitor e a magia que encontramos na experiência de criação desses livros.


Confere aí o nosso bate-papo:

Ana Paula, em sua trajetória profissional, como você acabou descobrindo o livro-brinquedo e inserindo esse recurso em seu trabalho na formação de educadores? 

Descobri primeiro o livro de artista, atuando num ateliê em Marseille, França, em 2003. No Ateliê Vis à Vis eles têm um acervo próprio de livros objetos, que produzem e expõem. Lá neste espaço, onde transitei, tudo é feito mesclando tecnologias de escrita contemporâneas e artes tradicionais como xilografia, litografia, prensagem, encadernação manual etc. Eles estão na lista de ateliês que conservam maquinário considerado patrimônio cultural da cidade. Assim, através dos salões do livro que visitei, ao longo de um ano, como o Lire en fête, entrei em contato com editores e artistas do FILAC (Fundo Internacional do Livro de Arte e Criação). Nesta fase conheci livros experimentais, provocativos, originais, artes e técnicas novas e me interessei pelo assunto, buscando novos referenciais. Fui procurar pioneiros e precursores, mergulhei no assunto em viagens culturais, na Alemanha e na França, sobretudo, mas também na Argentina e Espanha, e pouco a pouco me fascinei pelo universo de criação de livros interativos lúdicos - alguns do século XVII, inclusive, como os de Robert Sayer, livros de ação interativa de William Grimaldi, no século XIX, livros para brincar da S&J Fuller, toy books da Editorial Dean & Son, e children books interativos de Ernest Nister. Então comecei uma adorável coleção de linguagens de livros-brinquedo por onde viajava e assim fui tentando repertoriar tipos e modelos, técnicas e suportes que serviam a esta categoria, ora literária, ora informativa, afinal o livro-brinquedo pode ser dado ao entretenimento, às artes, à cultura ou ao prazer abstrato-lúdico ou mágico. Basicamente, com mais de 300 livros nacionais e internacionais nas mãos, em 2010, que variavam em apropriação das artes e formas, decidi procurar a então coordenadora geral do PNBE no Brasil, Aparecida Paiva, para provocar um assunto: não há espaço na seleção nacional de livros do MEC para livros-brinquedo. Por que? Só o preço de capa está em jogo ou livro-brinquedo não é considerado gênero literário? Tive o privilégio de ser ouvida na minha provocação e a tese “um livro pode ser tudo ou nada: especificidades da linguagem do livro-brinquedo” ganhou menção honrosa na UFMG e rendeu trabalhos fantásticos, como por exemplo o das 19 escolas municipais de Lagoa Santa que até hoje, de 2010 a 2016, no Projeto Alfalendo, já produziram mais de 200 livros brincantes e livros brinquedo desde as oficinas de confecção que ministrei na cidade a convite da Professora Magda Soares. As escolas é que mostraram que a demanda já existia, mas que livros interativos eram caros e estragavam rápido. Ademais, muitos acharam erroneamente que livro-brinquedo é livro em 3D, pop up. Livro-brinquedo engloba mais de 15 linguagens. É um gênero bem rico de ser explorado na sala de aula. E percebemos em contações que as crianças amam ler brincando, amam se sentir sujeitos da ação, amam experimentar, tocar, mexer, interagir com os livros. Desde o ano passado realizo formações com as UMEIS de BH sobre como usar livros-brinquedo na Educação Infantil. Aprendem e se divertem apreciando e curtindo livros que têm conteúdo, materialidade atraente, apelos visuais chamativos, que gratificam na leitura e puxam pela ação.


Você acredita que o livro artístico e lúdico convoca a outra leitura, diferente da que realizamos habitualmente?

Creio que a boa leitura gera deslocamento. Um livro de literatura instigante nos tira do lugar, digamos assim, transpondo-nos para um espaço onde a mente faz conexões que extrapolam a leitura de palavras. O livro lúdico permite a descontração, a catarse, a brincadeira, o ir e vir, a apreciação despretensiosa, a abertura influente para a reflexão e acesso a funções da linguagem. No livro artístico coloca-se em cena o experimentalismo da criação, a sensibilidade de um artista (tipógrafo, designer, editor, escritor, encadernador ou, hoje em dia, um mix disso tudo) para lidar com a unidade que potencializa a junção forma e conteúdo. Ou seja, no caso do livro de artista, é difícil haver uma nova edição da obra mantendo o conteúdo e alterando-se a forma (capa, tipologia, formato, dobraduras etc.), porque tudo é uma unidade que significa junta. Mas respondendo à sua pergunta, acho que todo livro lúdico-interativo é aquele que sustenta a vontade da ação, exercita o comunicar e convida ao pensamento-ação. Então isso gera sim um diferencial. As mãos estão mais ativas neste exercício de leitura que perscruta as páginas, gramaturas, dobras, vincos, fendas, linguetas, montagens da engenharia do papel, trilhos, giros e tantos outros recursos que cabem num livro artístico e lúdico-interativo.


No processo de formação do leitor, qual a importância do contato com os livros brinquedos? O que essa experiência pode lhe trazer?

Vital. Primeiro a criança experimenta tocando, sentindo, pegando, provando, querendo ou não, tateando, puxando, mexendo, cheirando, virando, abrindo, fechando. Se o livro é feito para brincar e se, mais ainda, carrega o magnetismo do brinquedo, isso não me parece supérfluo para a infância, mas sim de grande valor, tanto para a vivência como para a recompensa mental cognitiva que ao explorar descobrirá prazer e conhecimentos.  A criança, tendo em mãos um livro encerado (que é lavável), um livro fragrante (que exala aromas quando friccionado), um livro de plástico atóxico (que pode ser molhado no banho), um conto montado com estruturas em velcros (que por meio de um reconto pode transmutar de lugar os personagens pela ação infantil), um livro cenário (que vira um espaço de ficcionalização e ação), um livro no formato de um animal de pano (que conta uma história e move pernas e fisionomia), um livro com espaços ocos e vazios (que podem ser preenchidos pela imaginação após sugestões livres e lúdicas), um livro que parece responder às suas ordens após o toque e mova (como Aperte aqui, de Hervé Tullet)... enfim... esta criança vai exercitando a autonomia do seu pensamento, vai ganhando vivências, aos poucos e curiosamente vai descobrindo usos de linguagem denotativos e conotativos, diretos e sugestivos, vai desejando o contato com livros que oferecem não o banal, ou seja, algo mecanicista do tipo monte um quebra-cabeça neste livro, mas sim algo mágico e significativo que dá corpo ao pensamento lúdico, como encontramos em Paul Hanson e “My mummy’s bag”, ou em Hervé Tullet e “O livro com um buraco”, ou em “Mon grand imagier à toucher”, da Milan Jeunesse, ou ainda em “Caterpillar spring – Butterfly summer”, de Susan Hood, e “Los 10 mejores juegos del mundo”, de Angels Navarro. Fundamentalmente a criança que tem acesso a livros-brinquedo não mecanicistas e sim criativos em conteúdo e forma, em atos de linguagem, exercita sua metacognição, ou seja, pensamentos a partir de experiências. E se a apreciação existe onde as sensações são chamadas, livros-brinquedo, bem garimpados em livrarias mundo, contribuem para a diversão livre, a autonomia do pensamento, o gosto pelo objeto livro e, gradativamente, pelo contato com o mundo (infinito) das ideias.


E a experiência de produção desses objetos, o que ela é capaz de mudar no olhar de leitores, autores, pais e educadores?

Acho que opera uma magia, como se algo fosse mexido dentro das pessoas, porque o livro-brinquedo é tido como algo recente, mas suas raízes são bem antigas. Há uma herança por traz do livro-brinquedo, que remonta a experimentalismos editoriais significativos. E diante de um livro interativo instigante, todos, adultos e crianças, se divertem, afinal o mais simples brincar articula entendimentos e faz com que nos sintamos vivos e no mundo. Inventar e experimentar funções para os objetos é lúdico, e redescobrir no espaço formal do livro o espaço para o brincar é mágico, uma vez que assim transitamos pela leitura num acesso descontraído, leve, entretido, prazeroso.

Leitores se surpreendem com a oferta de títulos, autores ainda se arriscam pouco a produzir linguagem lúdica em formato brincante, pais curtem com os filhos obras interativas que extrapolam suas antigas noções do que cabia num livro, e educadores observam o potencial atrativo dos livros que hoje reforçam uma experiência ativa no jogo da leitura. Mas toda essa nova “animação editorial” também pega muitas pessoas de surpresa, afinal livros-objeto, inclusive livros-brinquedo, aglutinam signos e nem todos exercitam uma educação do olhar para a estética, para a apreciação de ideias, impressões, sugestões (verbais e não-verbais). O tátil-sensorial é muito forte em livros-brinquedo e isso mexe bastante com a concepção de que a criança tem de poder pegar o livro, mexer nele, interagir diretamente. Mexe-se também com a ideia de acesso misto a formas de escrita, questão polêmica para alguns educadores. Outros torcem o nariz para livros que parecem brinquedos. E alguns começam a refletir que o objetal no suporte livro pode ser a chave para encontrar a literatura ou universos mágicos na infância. Assim, o olhar deve estar atento a estas produções que agora dirigidas a crianças e jovens investem em escrituras que vão além do limite do textual-imagético. A compreensão dos textos está na convergência dos meios de comunicar, como uma tendência deste século. E por isso as páginas vão assumindo funções semióticas com tantas potencialidades. A sociedade movimenta saberes e não podemos negar as novas demandas e criações culturais sem ao menos tentar experimentar a potencialidade destes signos multimodais que povoam alguns livros-brinquedo com tamanha força expressiva. Brincar também é uma forma de elaborar pensamentos, ações, necessidades, vontades, conflitos, propósitos. Então, que os mediadores sejam essenciais nesse processo de ilustração das potencialidades dos livros-brinquedo... e depois, basta deixar as crianças brincarem de ler, instigadas pela imaginação, identificação, prazer, manejo, pelas suas próprias relações motivadas.


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