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Manual do Professor? | Conversa com Ana Paiva

Publicado: 26/10/2018

Hoje a entrevista é com Ana Paula Paiva. Doutora em Educação pela UFMG, Ana Paula é professora, escritora, consultora editorial, formadora de mediadores de leitura e oficineira na área de confecção de livros lúdicos e artísticos. Como se fosse pouco, Ana Paula também é a responsável pela elaboração dos Manuais do Professor da Aletria. Lindões e divertidos, nossos manuais são também contemporâneos, não enquadram, convidam ao explorar. Como diria Ana Paula, "Neste cenário contemporâneo, um Manual do professor serve como recurso especialmente elaborado para seguirmos viagem...". Fique a seguir com as sábias palavras da especialista que nos conta um pouco sobre mediação de leitura, sobre seu processo criativo e sobre o do que chamamos de "Manual do Professor". 




1) Num tempo em que questionamos a ideia de "faixa etária" de um livro e de "moral da história", num tempo onde defendemos a ideia de múltiplas formas de leitura de uma obra, qual o lugar do Manual do Professor? É possível um manual que não aponte passo a passos, mas que convide o educador às diversas possibilidades de uma obra? Como?

Livros devem ser gratificantes quando descobertos! E quando o público inclui crianças e os jovens, cada vez mais há espaço espontâneo à reivindicação por um protagonismo no contato com livros, diante de variados modos de construção da linguagem literária na contemporaneidade.  O ramo infantojuvenil é continuamente enriquecido em suas propostas ficcionais, ações interlocutórias e jogos de significação. Formatos e acabamentos diferenciados e interativos atraem os leitores para as capas, seus apelos enunciativos e instigam a abertura daquela "caixa de surpresas e fantasias" chamada livro infantojuvenil do século XXI. O envolvimento do leitor passa por um desejo intenso de aproximação com os suportes de comunicação que apresentam ideias originais por meio de amplos recursos de uso de tecnologias de escrita. Tipo de letras incríveis e semelhantes a gêneros escolhidos - como terror, suspense, romance, diário - compõem esquemas de complementação atrativos e não artificiais, que formam a unidade da obra literária. Brilhos, relevos, edições em 3D, efeitos de imagem móvel - lenticulares e hologramas -, tudo isso aguça a apreciação, o interesse e o magnetismo pelo livro, sobretudo na infância e adolescência. Vejam edições como Harry Porter and the philosopher's stone: deluxe illustrated Slipcase Edition. Nesta edição para colecionador, o conteúdo continua como algo decisório ao gênero, mas observa-se igualmente uma crescente consciência de quão fenomenais são os múltiplos espaços de expressão e interlocução que cabem num livro contemporâneo. Então, gostar d eum livro, apreciá-lo, desejá-lo das mãos, bem como sua companhia, é algo complexo que atravessa a organização familiar, social, a experiência de vida. De modo que parâmetros de endereçamento ajudam na configuração macro d eum público -alvo, porém a literatura não pode ser recebida como um manual e nem precisa vir embutida de ensinamentos. A literatura existe para nos fazer sonhar. 

Concordando com Ricardo Azevedo no artigo "Aspectos da literatura infantil, hoje" (2000), "a literatura não pode estar reduzida a um trabalho ficcional domesticado e utilitário, visando unicamente abordar temas determinados pela escola ou por quem quer que seja". Considerando isso, a ideia de faixa etária funciona bem dentro do regime escolar porque lá, de fato, as crianças estão reunidas por ano e série. Mas a literatura sempre poderá atravessar as turmas e idades, pelo envolvimento que propicie, pela gratificação que instigue, pela motivação que engrene, pelos temas que acenda e que promovam a leitura. 




Neste cenário contemporâneo, um Manual do professor serve como recurso especialmente elaborado para seguirmos viagem... Afinal, a leitura e a apreciação representam os primeiros passos... para o leitor que deseja mesmo é voar para além dos ditos e imediados visíveis... De modo objetivo, uma vez que consideremos que na literatura infantojuvenil a linguagem veio para brincar com nossos sentidos, imaginação, conhecimentos, curiosidade e ideias, cada Manual da Aletria deve estimular e ajudar o professor a manusear em detalhes e sensibilidade o livro, objeto mágico e transportável que põe ideias a girar.  Deste modo, inovadoramente estes manuais apostam em leituras e atividades multimodais, isto é, no destaque a significados que contribuem para a compreensão do texto literário experienciado como cultura, encantamento e consciência.




Quando lemos um livro e depois vamos trabalhar com ele dentro de um planejamento pedagógico na escola, nós, professores,buscamos alinhamento natural com linhas de trabalho desenvolvidas no semestre. Daí a relevância, por exemplo, de nortear temas principais e transversais relacionados a cada obra. Pois realmente isso importa na seleção de planejamento pedagógico destas formas de comunicação especiais que configuram a literatura infantojuvenil. No entanto, o mais importante para um contemporâneo Manual do professor deve ser sua capacidade de motivar ações que gerem exercícios imaginativos, integradores, emocionais, inclusivos e pluriculturais, bem como de expansão compreensiva de complexidades e diversidades do mundo, sempre em valorização ao protagonismo dos alunos. Em suma, o Manual é uma oportunidade extra, um recurso suplementar consistente que cria incentivo a habilidades cognitivas, escritas, orais, sígnicas, motoras, expressivas, cênicas, rítmicas, estéticas. Recurso este disponibilizado junto ao livro literário como conversa estendida ao professor, refletindo algumas interessantes contribuições  à formação do leitor e, logicamente, dedicado ao professor-mediador e a quem percorra as amplas formas significativas de descobrir lúdica, cultural, motivacional e criativamente um livro.




2) Um bom manual é um companheiro de planejamento, dialoga com o educador e constrói junto com ele, instiga o professor e o aluno, dá liberdade. Como foi o processo de criação dos Manuais da Aletria? 

O processo nasce devagar... ele reúne muitas leituras, aprendizados, vivências, bagagens e assim vai surgindo um desenho de percurso com método, ou seja, com ordem e inspiração no proceder. A vocação docente sempre foi companheira do processo criativo dos Manuais da Aletria, pois não se trata de um recurso feito para qualquer um. Havia um rumo e este era acompanhar as problemáticas e elaborações afins ao universo de questionamentos que avivam a motivação leitora e, consequentemente, engrenam ações mentais, expressivas, conscientes, argumentativas e de formação de opinião. Portanto, a criação dos Manuais do professor considerou essencialmente a clareza das proposições oferecidas ao docente e demandas à literariedade, ou seja, àquilo que o leitor tem meios de "concretizar", alcançar, descobrir, desvendar e até reinventar através das leituras. Houve também preocupação com a estética e sua construção imaginativa de sentidos, e exemplificações de uso da linguagem simbólica em atividades individuais ou e coletivas.





3) Como um manual pode propor exercícios de multileituras partindo da narrativa e indo para além do livro? Você pode dar algum exemplo desse movimento presente nos manuais da Aletria?

As leituras existem no leitor. Só textos "fechados" levariam o leitor a leituras pré-determinadas. Esse nunca será o caso da literatura. Textos de alta densidade semântica, imaginativos, ricamente enunciativos são menos obedientes nesse sentido e, por esse motivo mesmo, deliciosamente múltiplos. Então, partindo-se de uma boa história, de um conteúdo original, coerente, instigante, transpassante - entre o que lemos no livro e o que nos atinge na alma - , todos viajam para fora da "moldura do livro que pode ter "x" páginas. Os Manuais pensam exatamente nesse sentido, de potencializar os livros da Aletria, naturalmente originais em abordagens folclóricas, narrativas e psicossociais, para preparar os leitores para seus próprios voos e deslocamentos, transformações e provocações na leitura. Então, num livro como O monstro das cores, belíssimamente ilustrado e atrativo aos olhos infantis, seria contra qualquer visão de valorização da inteligência da criança e de sua espontânea sensibilidade tratar a história desenvolvida por Anna Llenas como um simples manual de perguntas e respostas até definir, nomear e explicar "o que cada cor significa para o monstro?" . Ao contrário disso, o Manual do Professor de O monstro das cores aborda e incita nos alunos, por meio de atividades dialógicas e interativas: a representação corporal de um sentimento ou sensação; a sensibilização para o modo de sentir do outro; a expressão partilhada do seu próprio modo de se sentir ao longo da semana; jogos recreativos que lidam com o autocontrole, a contrariedade, a inclusão e o empenho motivado das crianças; entonações e gestos cênicos e sociais que demonstram estados de humor e a expressão de emoções etc.

Porque perguntas objetivas em manuais sempre terão lugar, mas hoje sentimos mais e mais a necessidade de que venham acompanhadas de aprendizagens transdisciplinares e de envolvimento social - no caso, dos alunos. O que no passado se convencionalizou em fazer por anos nos suplementos literários e manuais dedicados à literatura infantojuvenil era muito taxativo. Você acertou ou errou a resposta... O processo de criação dos Manuais na Aletria valoriza a gradativa entrada no jogo da linguagem do aluno, que se expressa - oralmente, ilustrativamente, argumentativamente, cênicamente, Por isso, há orientações, sugestões...


4) Você pode nos contar um pouco sobre sua experiência como mediadora de leitura?

Por anos fui mediadora de leitura em sala de aula em trabalhos voluntários de contação de histórias. Na Espanha também ofereci contações de história e oficinas de criação de livros lúdicos para crianças de educação infantil. Na UFMG, durante o doutorado, ministrei um curso de mediação de leitura para alunos do EJA, onde trabalhávamos sobretudo com a escrita significativa (escrevo porque entendo os sentidos por trás da escrita). Na família frequentemente reunia filhos, sobrinhos e amiguinhos na hora da contação lúdica, recheada de livros interativos e brincantes em forma e linguagem expressiva. Essa paixão acabou me levando a dar cursos de formação de professores em UMEIS em BH, cursos de dinamização de acervos em bibliotecas públicas de BH via Secretaria de Educação, e aulas de apresentação temática e cognitiva de livros para a primeira infância no Núcleo de Alfabetização e Letramento de Lagoa Santa.  Assim, autores como Hervé Tullet, Ed Vere, Svjetlan Junakovic, Neal Layton, Christian Guibbaud, Marie José Sacré, Giovanna Mantegazza, Lucy Cousins, dentre outros, tornaram-se companheiros de estrada literária e de brincadeiras de leituras... falo assim porque eram momentos de incrível leveza, muita alegria e espontaneidade, nos quais podia haver ação, movimento, perguntas, toques, interações de todo tipo ao redor do livro vivo... que a cada novo encontro nos presenteava em motivações ricas e expansivas. Isso foi fundamental para minha percepção de jogos imaginativos e da importância do magnetismo da aventura do brinquedo e do brincar na fase de apreciação leitora infantil. Forma-se um leitor desde o berço. O amor nunca pára de surgir e crescer. E deve ser oferecido desde a infância... Por que o amor aos livros seria adiado? 



5) Na sua opinião os manuais da Aletria também sugerem atividades e reflexões que se encaixam no contexto familiar de mediação de leitura entre pais e filhos? Como?

Claro. Justamente porque não só professores são mediadores de leitura. Nos momentos íntimos, em casa, a criança que cresce no prazer da leitura e que tem espaço para manifestar suas apreciações, naturalmente convidará os pais a algum momento de compartilhamento na hora da leitura. Então, de modo muito acessível, os Manuais da Aletria trazem para a intimidade do contexto familiar aspectos que podem ser conversados a partir dos temas dos livros, há sugestões artísticas de incentivo à ação e criação, sempre a partir de materiais bem acessíveis. E, o que imagino ser mais importante de destacar: os Manuais da Aletria incentivam justamente a conversação curiosa, não à mercê do simplismo, e o MANUSEAR, o passeio de mãos, olhos e mente por aquilo que existe na história, em ilustrações e palavras, e então o voo (literário)... ou seja, o momento de se desprender e de passear por caminhos interpretativos que seu olhar alcançou, pescou, sondou, relacionou... 

Eis a super brincadeira literária! Perceber que nenhum livro se esgota... e que o Manual é só uma das maneiras de mostrar que as leituras existem nos livros e na nossa capacidade de gerar outros textos (saberes) a partir de ideias... isso de modo ad infinitum.


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Baixe AQUI os Manuais do Professor da Aletria, incluindo o manual das obras "O Monstro das Cores" e "Nícolas em: O Presente", obras aprovadas pelo PNLD Literário 2018 (Pré-escola e Fundamental I, respectivamente). 


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