Cantigas e fadas apavorantes

Publicado: 06/09/2017

“Foi à noite e em voz baixa, sob a luz fosca do medo, que se contaram essas histórias sem lei. Foram essas narrativas que marcaram para sempre aqueles que seriam chamados tempos da meia-noite do mundo."

 

O próximo lançamento da Aletria, Contos da meia-noite do mundo, traz versões pouco conhecidas dos contos Chapeuzinho Vermelho, Cinderela e A Bela Adormecida. Esses clássicos, conhecidos no mundo todo, sofreram diversas modificações ao longo do tempo. Para o contador de histórias argentino Rodolfo Castro, a leitura desses contos adaptados na escola lhe trazia um profundo tédio.

 

Suavizaram a tal extremo seus conteúdos que chegaram ao disparate de fazer com que os antagonistas terminem sendo todos amigos. Isso se parece mais com ignorância que com felicidade. Creio que essa manipulação cause efeitos ainda mais destrutivos na mente infantil que as versões com castigos explícitos. Porque essas versões de bondade extrema subvertem a essência dos personagens, violando, inclusive, as regras mais elementares da fantasia. A meu ver, não há nessas versões nada que se aproxime, sequer por um momento, de uma verdade, seja qual for.

 

À procura dessa verdade, Rodolfo fez uma extensa pesquisa sobre a história medieval e nos presenteou com o seu livro Contos da meia-noite do mundo.

 

E, para esquentar o clima dessa conversa, separamos um trecho do livro A condenação de Emília em que Ilan Brenman faz uma reflexão sobre a “invasão” do politicamente correto na literatura infantil. Vem ver!

 

"No começo de 2004, uma reportagem do programa Fantástico, da Rede Globo de Televisão, revelava uma discussão acalorada sobre as cantigas infantis. Um grupo de professores e coordenadores pedagógicos de algumas escolas defendia a ideia de que elas estimulavam o preconceito, a maldade, o individualismo das crianças. Outro grupo defendia sua permanência nos ambientes educativos e familiares. Infelizmente, depois que a matéria foi veiculada, muitos professores começaram a mudar, ou simplesmente a excluir, as cantigas dos repertórios infantis.

 

O passado e o presente nos dão exemplos de como o educador deve estar atento a esses movimentos acusatórios que circulam diariamente na frente de nossos olhos e ouvidos. Todo esse processo de cerceamento discursivo, por uma via ou outra, acabou se aproximando da literatura infantil.

 

O politicamente correto invadindo os contos de fadas não é algo recente. Os Irmãos Grimm revisavam seus escritos riscando expressões e alterando situações, a seu ver, inadequadas às crianças. Os Grimm usavam sua tesoura moralista de acordo com suas convicções, ou seja, o corte vinha de dentro para fora. Evidentemente, o ambiente exterior formatava o pensamento do indivíduo, mas não era uma imposição do establishment local. Eles buscavam cortar trechos que explicitavam um humor vulgar, resíduo da tradição oral. Por outro lado, e aí reside a força desses escritos, preservaram e, muitas vezes, exacerbaram a violência dos contos. Na primeira edição dos Contos da infância e do lar, os olhos das irmãs de Cinderela são poupados; já na segunda, pombos bicam seus olhos. A introdução de receitas moralizantes protestantes também não fazia parte das histórias orais coletadas, mas os Grimm acreditaram que seria um benefício inseri-las nos contos.

 

Charles Perrault também modificou os contos que coletou, adaptando-os à moral vigente na corte francesa do século XVII. Alexander Afanasev (1826–1871), folclorista russo que coletou os contos da tradição oral de seu povo, teve de mudar à força suas versões dos Contos de fadas russos para crianças, pois o sumo sacerdote da igreja local considerava os contos imorais. Afanasev respondeu ao ataque assim: “Há um milhão de vezes mais moralidade, verdade e amor humano em minhas lendas populares que nos sermões proferidos por Vossa Santidade”.


Afanasev acabou eliminando contos considerados indecentes e, mesmo assim, sua obra foi confiscada e queimada. O fogo queima a matéria, o suporte da ideia, mas a força simbólica dos contos tradicionais tem uma resistência às chamas fora do comum.

Em toda essa história não se pode esquecer de mencionar os ouvintes principais dos contos de fadas: as crianças. Mesmo sabendo que antigamente adultos e infantes compartilhavam o mesmo espaço da narrativa, foram as crianças que se apropriaram do mundo maravilhoso do conto. Isto é, elas vão escolher as versões que mais lhes agradam, que mais lhes dizem respeito, que mais lhes falam diretamente à alma. No entanto, pouco ouvimos nossas crianças, e são elas que deveriam dar o parâmetro para a tesoura do politicamente correto".


****

Ficou curioso? Então passa na nossa lojinha!


Contos da meia-noite do mundo


(Contos da meia-noite do mundo - Rodolfo Castro, com ilustrações de Alexandre Camanho) 


A condenação de Emília



Voltar