Coluna do Gui #05 - O que o repolho me ensinou | Aletria

Coluna do Gui #05 - O que o repolho me ensinou

Publicado: 01/12/2016
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Coluna do Gui #05 - O que o repolho me ensinou
16/05/2016
e A Repolheira

Tenho feito algumas divagações em torno de um vegetal em especial: o repolho. Comecei a me dedicar a essa empreitada depois que conheci e conversei com Claudia Nina, escritora do livro A Repolheira, durante sua visita ao estande da Aletria, na 11ª Feira Nacional do Livro de Poços de Caldas. Nessa oportunidade pude conhecer alguns detalhes sobre a história externa do livro, ou seja, a história empreendida por Cláudia desde a concepção da narrativa até o livro ficar pronto.

O repolho tem um quê de frio e introspectivo: o repolho é hermético. Parece que nele se habita mais sombra do que luz, mais segredo do que revelação. O repolho é um vegetal ensimesmado.
Muito parecido com o repolho, a protagonista do livro vive em uma casa isolada da aldeia e se veste com um grosso pano escuro que lhe cobre quase todo o corpo. Não tem contato com ninguém, a não ser com si mesma. Não divide seu lar com nenhum parente, a não ser com si mesma. Somente durante o verão, ela vai à feira para vender repolho e, claro, é alvo de muito receio da comunidade que não a conhece. A Repolheira é hermética. Nela habita mais sombra do que luz, mais segredo do que revelação.

Um belo dia, eis que surge na aldeia um comerciante que se perdeu do caminho do seu destino. [frase curiosa, porque consideramos que o destino se encontra no caminho certo, mas, na verdade, ele anda mais adiantado do que nossos passos. O destino é que faz o caminho ficar certo!] Pronto, não conto mais nenhuma vírgula do livro! Queria apenas chegar a esse ponto: o desfolhar do repolho. Ao se entreabrir, o que um repolho nos revelaria? Ele mesmo, eu diria, pois dentro do repolho tem mais folhas de repolho. Sim, mas ao se revelar mais um pouco, o repolho nos dá a chance de lhe conhecer. Ele está tendo coragem de se expor, de ganhar luz, de entrar em contato com o desconhecido. E esse pequeno gesto do repolho deveria ser reconhecido por sua grandeza.
Sabe, somos um pouco parecidos com a Repolheira. Se deixar, ficamos fechados sob nossas folhas. Não porque rechaçamos o mundo exterior, mas porque talvez criamos medo dele, daquilo que nos é desconhecido. Relacionar com o outro nos é custoso: o outro com aquelas suas folhas. De qualquer forma, precisamos reconhecer que o destino não é de ninguém se não for de todos. E o que poderíamos deixar junto com nossas pegadas são as folhas daquilo que fomos.




Guilherme Torquetti
Além de entusiasta da leitura, Guilherme Torquetti é professor de literatura e colaborador da Aletria. Acompanhe as colunas do Gui aqui no blog da Aletria! Caso queiram compartilhar experiências relacionadas à este post ou queiram estruturar algum projeto pedagógico com essa temática, o professor Gui está à disposição para contribuir: gtorquetti@yahoo.com.br
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