Conversa com a escritora | Andrea Viviana Taubman

Publicado: 27/10/2017

“Escrever esse livro foi um caminho natural, um compromisso da minha alma com a infância”

No texto abaixo, Andrea Viviana Taubman nos conta um pouco do processo de escrita de seu novo livro “Não me toca, seu boboca!”, lançado este mês pela Aletria.

No livro, Andrea aborda a questão do abuso sexual infantil de maneira lúdica para que as crianças, ao entrarem em contato com a história, possam conhecer e reconhecer atitudes suspeitas.

Dos primeiros esboços à versão final

Fui voluntária em abrigo que recebia crianças e adolescentes vítimas de maus tratos. Algumas delas eram vítimas de violência sexual. Eu ficava muito mobilizada com o olhar delas, parecia que aquele brilho tão próprio da infância, que tudo quer saber, desaparecia depois dessa situação. Como mãe de dois meninos, a possibilidade de que eles pudessem passar por algo assim me atormentava. Foi muito difícil para mim, enquanto mãe, falar sobre o perigo do abuso com meus filhos. Escrever o livro “Não me toca, seu boboca!” foi um caminho natural, um compromisso da minha alma com a infância e com todo o conjunto de adultos responsáveis que precisam falar sobre isto com seus pequenos e não sabem como.

Escrevi a primeira versão no início de 2011, com o esqueleto do texto gestado a partir do material emocional e vivencial adquiridos no abrigo, mas ainda sem referências técnicas. Entendendo a responsabilidade imensa que o assunto demandava, procurei um querido amigo de infância, psicólogo, que tinha contato com a instituição Childhood Brasil (C.B.)[1]. Com a ajuda dele, enviei meu texto inicial para a C.B. avaliar tecnicamente. Eles fizeram uma série de considerações e me enviaram sugestões de leituras. Fiz as primeiras revisões após esses estudos. Troquei ideias com outra amiga psicóloga e psicanalista que teve algumas pacientes vítimas e ela me trouxe outros aportes com os casos. Mais uma outra amiga, juíza de família com importante trajetória na área da infância e dos direitos humanos, me instruiu sobre as publicações de estatísticas de alguns órgãos que se dedicam ao assunto, por exemplo, o Dossiê Criança do ISP do Rio de Janeiro[2], em que constam relatórios sobre a gravidade e o perfil dos chamados "crimes contra a dignidade sexual". Essa amiga me colocou em contato com profissionais da psicologia e do meio jurídico que atuavam no NUDECA (Núcleo de Depoimento Especial de Crianças e Adolescentes).

A partir desses encontros, fomos ajustando texto e ilustrações. A opção por utilizar animais humanizados como personagens, por exemplo, foi uma orientação da equipe de psicologia, que sugeriu utilizar este recurso para minimizar o impacto da aridez do tema. Assim trabalhamos até que todos os detalhes fossem esculpidos para culminar no livro que está chegando agora.


Sobre os desafios da escrita

Do ponto de vista do fazer literário, foi bem desafiador escrever um infantil com viés informativo que busca alcançar crianças bem novas sem perder o encantamento do "era uma vez...". Penso que minha formação científica (sou graduada em química) sempre me ajuda nessa hora em que preciso preparar a poção mágica do ler/conhecer com prazer. Mas o maior desafio foi encontrar a melhor maneira de introduzir um tema dessa natureza. Como falar de um assunto que envolve tanta dor de uma forma suportável para as crianças e suas famílias? O abuso sexual na infância é aquele assunto que pode ser comparado a um monstro invisível que ronda o imaginário de muitos, mas que dificilmente é abordado de uma forma clara e objetiva. Quando as crianças começam a ganhar um mínimo de autonomia, a questão precisa ser encarada de frente, sem rodeios. Mas como? Como prevenir sem apavorar? Como explicar que há uma diferença entre carinho e abuso, sem ter que entrar em detalhes, a princípio dispensáveis? Estas são perguntas que representam apenas uma amostra desses desafios. Cada palavra, cada frase, cada rima foi meticulosamente estudada e consultada com os especialistas para que nada no texto ficasse dúbio ou promovesse de alguma forma a revitimização da criança que já foi abusada e não consegue identificar ou falar sobre o acontecido. Até o título e o nome do personagem agressor demandaram profundas reflexões. Falar de abuso e violência sexual na infância, assunto que tanto atormenta, repugna e apavora – de uma maneira suave e eficiente – é um grande caminhar sobre o fio da navalha.


A literatura como mediação

Sou defensora e fã incondicional da literatura como ponte para alcançar as emoções – tema de uma das palestras que mais gosto de fazer. Costumo dizer que a literatura infantil, em particular, é uma espécie de amoroso pé-de-cabra capaz de abrir a porta do coração que às vezes emperra. As crianças muito novas, de um modo geral, têm dificuldades para explicar o que sentem, principalmente se for algo que as faz sofrer ou incomoda: ainda faltam palavras no seu vocabulário e o repertório de experiências delas é pequeno. Então a leitura compartilhada com os adultos que são referência afetiva para a criança constitui uma oportunidade preciosa para que ela possa se colocar emocionalmente, por meio da identificação com a história e os personagens. Assuntos delicados demandam cuidados e disponibilidade emocional. O momento da leitura compartilhada gera cumplicidade e intimidade entre a criança e o adulto que lê com ou para ela.  Estas são condições fundamentais para que o ambiente de confiança se estabeleça e propicie a conversa sem temores. Os adultos que sofreram violência na infância, às vezes passam uma vida inteira sem conseguir abraçar seu passado de dores, pois sua criança interna ainda está fragilizada e ferida. O livro também foi escrito para esses adultos. Espero que a personagem Ritoca possa chegar a muitos lares e que sua história evite novas situações de abuso e violência.


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O livro será lançado no próximo domingo, 29/11, durante a Primavera Literária do Rio.
Mais informações: https://goo.gl/KUJTNK
Em pré-venda na nossa lojinha virtual: https://goo.gl/6jSAUE

[1] Criada em 1999 pela Rainha Silvia da Suécia com o objetivo de proteger a infância e “garantir que as crianças sejam crianças”, a Childhood Brasil é uma organização brasileira que faz parte da World Childhood Foundation (Childhood), instituição internacional que trabalha para influenciar a agenda de proteção da infância e adolescência no mundo.

[2] http://arquivos.proderj.rj.gov.br/isp_imagens/Uploads/DossieCriancaAdolescente2015.pdf

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