Conversa com a ilustradora | Bruna Lubambo | Aletria contação de histórias, aletria, livro, histórias

Conversa com a ilustradora | Bruna Lubambo

Publicado: 11/04/2019

Batemos um papo com Bruna Lubambo, ilustradora do nosso último lançamento, O Bicho Mais Poderoso do Mundo.

Bruna veio de Recife, nasceu em Santos, cresceu no Rio de Janeiro e foi criada em Timóteo, interior de Minas. UFA!

Veio para BH para fazer faculdade e por aqui ficou. Estudou Comunicação Social na UFMG com foco em criação visual e comunicação para mobilização social. Conheceu as linguagens da gravura, serigrafia, desenho e pintura em cursos e oficinas extracurriculares pelo Brasil. Hoje trabalha como ilustradora, designer gráfico e educadora no seu estúdio, o Casa Miúda, e na Associação Imagem Comunitária - AIC. 

Confira abaixo a entrevista completa.


1. Primeiro, conta pra gente como começou a sua relação com os desenhos...

É clichê dizer isso, mas foi isso mesmo, minha relação com os desenhos começou desde bem miudinha. Lembro que gostava de ilustrar com massinha e aprender técnicas novas com as colegas: como desenhar bonecas apenas com círculos e triângulos, cachorros apenas com desenhos de letras, etc. Mas até aí não tem muita novidade, acho que toda criança gosta muito de desenhar né? É só dar um pote de tinta e esperar o estrago! Mas dia desses, encontrei um diário meu de quando eu era uma criança de mais ou menos dez anos. Lá estava escrito bem assim:  "Quando eu crescer quero escrever e ilustrar meus próprios livros infantis.", então acho que o negócio era sério! rs.


Tem um caso engraçado de quando eu tinha uns dois ou três anos: recortei várias páginas de revistas e jornais e colei tudo (com cola líquida mesmo) em uma parede da sala. Ocupei a parede o máximo que pude. Quando minha mãe voltou do trabalho, mostrei orgulhosa: "Olha, mainha! Que bonito que eu fiz!". Que surpresa, hein! 


De lá pra cá, quis e tentei ser muitas coisas: amazona de rodeio, veterinária de vaca, nadadora, médica, confeiteira, arqueóloga, locutora de rádio, manipuladora de marionetes, contadora de histórias, designer, oficineira... Ilustrar começou virar profissão quando virei uma designer, formada em comunicação, que enfiava ilustração em todos seus trabalhos. Minha formação foi muito extra-curricular, não formei em artes, nem em design, mas fiz muito e muitos cursos livres e oficinas por aí. Estudei serigrafia, estamparia, gravura, desenho, pintura, fotografia, stopmotion, tipografia, lettering, colagem, etc. Mas minha escola mesmo foi trabalhar no Polo Jequitinhonha da UFMG, na Associação Imagem Comunitária e no Grupo Pirilampo: um projeto de extensão e duas ONGs que me deram carta branca para experimentar adoidado, seja ilustrando para Almanaques, livros e cartilhas educativas, seja criando murais, revistas, fanzines, vídeos e animações junto com crianças e jovens em processos colaborativos, onde a gente acaba aprendendo mais que ensinando, sempre. 


2. Como foi o processo de criação para a ilustração d´O bicho mais poderoso do mundo? Esse foi o seu primeiro trabalho para um livro infantil?

Eu sou uma escutadora de história das boas! Como toda escutadora de histórias que se preze, amo um conto cumulativo. Quando li a primeira versão do "Bicho mais poderoso do mundo" fiquei empolgadíssima com a história. Passei a ir pro trabalho (vou a pé) lendo e relendo o texto em voz alta, perigando cair num buraco. Li, reli até que pensei em algo de certa forma óbvio: criar uma narrativa visual cumulativa para um conto cumulativo. Foi aí que imaginei cada bicho novo surgindo nas páginas ímpares e os demais se acumulando nas páginas pares. Intercalado a isso, um jogo de adivinha, momentos de "plano detalhe", onde o leitor fica na dúvida: "Qual será esse novo bicho tão tão poderoso?". Apresentei essa ideia para editora, Rosana e Jéssica gostaram muito da ideia (Oba!). Depois teve o processo de aprovar os esboços das composições e fazer pequenas alterações: um leão mais pra baixo, um gato um pouco maior, um macaco fazendo mais macaquice, Rinoceronte mais pra direita, mulher mais pra esquerda, coisa pouca. Na hora de partir para a tinta, lápis e giz não foi fácil, eu tava no final de uma gravidez, com um barrigão danado, torcendo para dar tempo de acabar tudo antes de José Mariano nascer. Terminei de ilustrar sentada naquelas bolas de pilates. hahaha! Depois disse pro meu filho: agora você pode nascer. No outro dia ele (Poc!) nasceu.


O processo foi todo muito prazeroso. Muito mesmo. Já tinha ilustrado um livro infantil independente que minha mãe escreveu em 2013 sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente (O Menino Pirilampo e sua amiga Cá), mas ilustrar só o texto da própria mãe não vale né!? Foi com o convite da Rosana de Mont`Alverne que estreei oficialmente minha carreira como ilustradora de livros infantis, com direito a ISBN, ficha catalográfica, texto de quarta capa e entrevista no blog da editora!




3. A origem africana do conto influenciou seu trabalho? Na técnica, cores, referências...

Sim. Quando comecei a pensar nas referências para as ilustrações pesquisei elementos ilustrativos bantos. Mais especificamente usei elementos de algumas estampas como inspiração para as flores, folhagens e padrões das roupas dos personagens. Troquei uma ideia também com meu marido, que já foi tocar berimbau na região nordeste da África do Sul por duas vezes, numa cidade chamada Durban, já nas proximidades de Moçambique e de Lesotho. Depois de trabalhar, ele viajou para conhecer a savana e alguns dos bichos mais poderosos do mundo, chamados lá de "Big Five". Ele me contou que a savana lembra muito nosso cerrado, que ela também está passando por problemas de secas prolongadas, falou sobre quão majestosos são o rinoceronte e o elefante...também lembrei desses relatos na hora de pensar nas cenas. Coincidentemente, na mesma época, eu estava desenvolvendo a identidade visual do Cio da Terra - coletivo de mulheres migrantes. Nesse processo me propus trabalhar com padronagens características dos países de origem dessas mulheres migrantes, entre eles a República Democrática do Congo, Senegal e Nigéria, acabou que um trabalho ajudou o outro. 


4. A Aletria está chegando com essa coleção, Colorín Colorado, para trazer histórias orais para o papel. Como você vê essa ação no mundo editorial infantil?

Gosto de ler livros em voz alta. Quando leio em silêncio, estou lendo em voz alta na minha cabeça. Sempre leio assim. O escrito veio do contado. As histórias mais gostosas que conheço são de caso falado. Acho que chamar um contador ou contadora de histórias dos bons para colocar no papel aquela história que é sucesso no seu repertório é meio caminho andado para o livro ficar delicioso. Depois é só chamar uma ilustradora beem legal (rs!), editar o texto com primor e voilá! 

Outra coisa, precisamos reaprender a contar histórias, né? Difícil você ver gente nova que tem um repertório de histórias para lançar mão numa roda de conversa de bar, numa sala de aula, ou com os sobrinhos, filhos. Não digo de contadores profissionais, falo sobre a arte de contar histórias não profissional mesmo. Meus bisavós e avós contavam e contam histórias, minha geração não, muito pouco, quase nada. É verdade que quando se torna mãe, uma contadora de história vai brotando dentro de você, seu filho pede! É precisão. É preciso contar histórias para além de relatar acontecidos, a narração oral guarda riquezas muito grandes, estruturas, formas de elaborar discurso, é lindo. É humano demais. É preciso contar histórias para reinventar o escrito (eu não sou da área desses estudos, tá?), mas penso que um depende do outro de cabo a rabo. Entendo que a coleção Colorin Colorado pode ser um pontapé dos bem dados para tomarmos vergonha na cara e começarmos a montar nosso repertório de histórias. 
Colorin Colorado, caso encerrado!



5.  Pra fechar, quais ilustradoras te inspiraram a se tornar ilustradora também? Tem vontade de trabalhar em colaboração com alguém?  

Vamos lá. Hmmm... puxando pelo fio da memória, acho que 1) Eva Furnari e sua Bruxinha, pelo tanto que li e reli e li novamente até o papel furar. 2) A Isol, porque eu tive um filho só para dar para ele o livro Ter um patinho é útil de presente! 3) O Roger Mello, porque Meninos do Mangue é talvez o meu livro favorito de todos os tempos. 4) Catarina Sobral, porque eu fico namorando as ilustrações, animações e peças de teatro dela pela internet. Com certeza esqueci de vários nomes. Poderia citar também um sem fim de inspirações fora do mundo da ilustração de livros infantis  propriamente dito: os gravuristas Gilvan Samico e J. Borges, os mestres ceramistas Ulisses Pereira e Vitalino, Zélia Suassuna, por aí vai. 

Seria legal fazer um livro com Bruno Munari, mas ele já faleceu. Puxando o saco para os estreantes como eu, gostaria de fazer um livro sanfona impresso em risografia - 4 cores ou mais - com o meu vizinho Marco Chagas.

Se você ainda não adquiriu O Bicho Mais Poderoso do Mundo, corre aqui, que as ilustrações da Bruna estão de chorar de tão bonitas!




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