Bate-papo com Maurizio Manzo | Aletria

Bate-papo com Maurizio Manzo

Publicado: 24/10/2016

e as cores de Malu

Antes de embarcar nesta nossa conversa com o ilustrador, é preciso saber o quão destemido é nosso leitor, pois nesse bate-papo com Maurizio Manzo você pode esbarrar com um grito marrom, um pinguim avermelhado e um sol habitado por Malu, nossa nova protagonista que traduz a vida por meio das cores.

O designer e ilustrador Maurizio Manzo traz consigo cores e formas da Itália, do Chile, de São Paulo recolhidas ao longo de sua vida inteira. Assenta-se em seu atelier solar aqui em Belo Horizonte, na companhia de seus copos com água, e vai diluindo e aprisionando tudo em novos personagens sobre o papel. Essa é a sua maneira de ir ao encontro do outro, desafiar seu olhar com a fluidez das ilustrações.

Um belo dia, Rosana, a feiticeira, apresentou-lhe a história de Malu e sob o encantamento daquela narrativa, ele coloriu o mundo da menina. Quer saber de onde vêm todas as cores de Malu? Vem com a gente...

Maurizio, conta pra gente como foi seu primeiro encontro com a Malu. Qual cor teve esse encontro?

Meu primeiro encontro com Malu foi numa conversa com Rosana Mont’Alverne. Ela me contou que a história estava pronta, aguardando para ser colorida. E, rapidamente, a contou para mim. Rosana contando a história, na escrita ou na fala, é sempre fantástica! Um tempo depois, recebi o original pela editora Aletria. A personagem Malu? Eu já tinha visto nos gestos da Rosana.

Você se identifica com a protagonista, também compreende o mundo por meio de cores?

Trabalho com cores, o que me leva, às vezes, a pensar o mundo e suas cores como significados e símbolos: sua psicodinâmica. No livro, optei por desenhar a Malu sem cores, sempre transparente. Dessa forma, a cor de fundo se mescla com seu corpo, tornando-a colorida.

Histórias como a de Malu e as dos livros infatojuvenis que você ilustra te tornaram mais colorido? Quais são as cores de Maurizio?

Assim como Malu, também gosto de prestar atenção nas composições cromáticas ao nosso redor. Não tenho uma cor predileta, deixo um pouco elas conduzirem e também ceder lugar para a próxima cor que está por chegar, quente ou fria, lenta ou rápida, alegre ou séria, clara ou escura, luminosas ou brilhantes. Mas sempre presentes.

Desafio Calango

E o Maurizio Manzo também aceitou o nosso Desafio Calango. Esse divertido nome a gente emprestou da cantoria popular de origem mineira, que vem lá da Zona da Mata, em que os contendedores se desafiam no improviso. Cantando quadras e sextilhas em compasso binário sobre o dia a dia da vida no interior. É derrotado o competidor que esgotar primeiro suas rimas. No nosso Desafio Calango, lançamos uma série de perguntas para os nossos convidados e os provocamos a contar um pouco de suas próprias histórias. No final, você leitor é quem acaba desafiado a embarcar em uma viagem pelas obras preferidas dos entrevistados, os locais onde produzem e as aventuras em que mergulham na hora de criar.

Para os destemidos que se aventuram por suas ilustrações, quais surpresas eles podem encontrar?

Para os destemidos está tudo certo. Já os mais “tímidos” podem encontrar um peixe da cor da água. E, então, se a água é da cor do peixe qual é a cor da água? Um pinguim avermelhado, um grito marrom, ou um Sol com Malu morando nele.

Qual o livro mais fantástico pelo qual você se aventurou? Quais aventuras você encontrou por lá?

O livro mais fantástico é sempre aquele que estou ilustrando no presente. Já vi muitas coisas neles: menino com nome de menina, pai que preenche a casa e a vida de tão figura, luas com sete saias e peixes feito pássaros, rinocerontes de papel e princesas nascendo, tias mais alegres que o sobrinho, meninos com medo, super-herói-avestruz, famílias de tudo quanto é jeito, sabiás e passarinhos, o homem mais bonito do mundo, festas e lendas africanas, rastro de estrelas, nuvens de todas as formas e cores, palavras aladas, moças bobas, gatos escaldados, monstros que fazem rir, procissões em cemitérios, lendas do folclore, flores e Flora. E Malu, luminosa!

Em quais peripécias você se envolve na hora de criar? 

Sempre buscando a integridade entre a narrativa e as imagens. Cada história é única e acredito que assim deve ser com as ilustrações, também. Para ilustrar Malu escolhi fazer todos os desenhos com lápis de cor aquarelados. Gosto de variar de acordo com o tema ou as surpresas que a narrativa oferece. Sendo assim, utilizo diversas técnicas de acordo com o que me parece ser o melhor ou mais coerente: lápis de cor, lápis grafite, aquarela, guache, nanquim, pastéis, lápis de cera, tinta acrílica, a óleo, até chegar nas colagens e seus recortes bidimensionais.

Quem é a criança provocadora que te instiga a encarar o desafio de criar uma nova ilustração? Você pode nos enviar uma imagem que represente essa criança?

A criança que instiga e provoca são sempre os outros. O olhar dos outros, a percepção do outro. Dificilmente alguém produz uma obra, seja um desenho, um livro, um filme, uma música, uma dança, assim por diante, sem querer que o olhar do outro seja posto à prova. Mesmo que distante e desconhecido.

Talvez a melhor imagem ou a mais interessante para essa criança seja uma página em branco, a espera de uma nova história e, ao mesmo tempo, receptiva ao que virá.

Como é o lugar onde você cria? Está mais para uma floresta encantada, uma mansão mal assombrada, um grande sertão, ou a Terra do Nunca? 

Desenho pelas manhãs, gosto da claridade do dia. Além das cores não sofrerem nenhuma interferência de luz artificial, preciso da luz do sol para desenhar, indireta, mas um lugar sempre bem claro. Talvez esteja mais para um atelier solar... O resto é tudo muito simples: mesa, cadeira, lápis e copos com água para ali diluir e ao mesmo tempo aprisionar a tinta.

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*Maurizio já recebeu dois prêmios “Altamente Recomendável”, pela FNLIJ. Foi selecionado na Feira Internacional do Livro Infantil de Bologna, Itália, e na Feira do Livro de Frankfurt, Alemanha. Em Todas as cores de Malu, o ilustrador retoma a parceria com Rosana Mont’Alverne, que começou com o livro Meu pai é uma figura, também da Editora Aletria 

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