Conversa com o ilustrador | Aletria

Conversa com o ilustrador

Publicado: 01/08/2016

e o gingado das gravuras de Salopão

Gravurista de formação,

capoeirista de destino.

Cruzou com o cordel ainda jovem

e a simpatia daquela poesia

marcou-lhe os caminhos.

Tales Bedeschi ilustrador do nosso queridíssimo Salopão, um jumento do sertão, deu o ar de sua graça aqui no nosso blog para nos contar um pouco sobre suas criações e histórias cheias de ginga, que são tecidas nas veredas do cotidiano, embaladas pelos cantos da capoeira angola e levadas pelo vento. Se você parar um pouquinho e ler com atenção, quase dá para senti-las em alto relevo nessa conversa. Então aproveita e entra na roda!

Tales, você já mantinha alguma proximidade com a literatura de cordel, antes de Salopão? Como você se sentiu mergulhando nesse gênero, considerado por Limoeiro “o jornal e a voz amorosa e crítica do povo nordestino”?

O cordel sempre me despertou um interesse. Quando jovenzinho, na escola, fiquei intrigado com o seu formato portátil. Pensava: "que maneira descolada de botar poesia no mundo! Esse livrinho pequenininho, essas estrofes cantantes...". Com o tempo, fui chegando à conclusão de que o cordel era uma maneira super versátil e simpática de fazer poesia. Ele ainda tinha uma beleza parda, que não dava bola para a alvura da erudição das poesias dos livros que eu conhecia. E essa beleza parda dava para o cordel uma plausibilidade incrível. Me explico: ele tem um ritmo e um formato que colam. Que colam na memória; que colam no dia-a-dia, no ponto do ônibus, numa mesa de bar, numa rede na varanda, numa cadeira qualquer. Ele é uma poesia que não exige uma pausa, uma suspensão. Ele é poesia do cotidiano. Nele cabem nossos modos corriqueiros de falar, nossas lendas, nossas histórias de pescador, nosso medo do diabo, nosso amor pela capoeira, nossa malandragem, nosso humor.

Como foi seu encontro com a “estética do Mestre Limoeiro”? Quais foram suas primeiras impressões? Quais imagens foram aparecendo a partir de sua leitura?

Para falar da estética do Mestre Limoeiro, vale falar primeiro da estética que eu cultivava até então, com a xilogravura. Afinal de contas, vamos falar do tanto que a minha estética pessoal foi desafiada pela do Mestre. Vou começar pelo início da minha história com a gravura. Eu entrei na Escola de Belas Artes da UFMG com uma certeza profunda de que pretendia trabalhar com arte. Mas tinha, ao mesmo tempo, certa superficialidade com a matéria, fruto das minhas poucas aulas de arte na escola. Quando entrei na faculdade, não sabia o que era gravura. Quando toquei na minha primeira chapa de madeira, já tinha passado por 3 semestres de disciplinas de desenho, recheados de cânones e modos tradicionais de pensar a linha: uma estética europeizada, digamos. Portanto, foi dessa terra que eu fiz minha fertilidade e lavorei feliz no campo da xilogravura.

(Ilustração de Salopão, um jumento do sertão, por Tales Bedeschi)

Quando fui convidado pela Aletria para fazer a ilustração, fiquei curioso. Quando li o texto do Mestre Limoeiro, fiquei de olhos estatelados. Pensei: “Eh, Talesbedeschi... você vai ter que rebolar. Porque essa estética que você tem cultivado não funciona pra esse texto”. E a partir daí começou a pesquisa. Desenhos e mais desenhos. Revisitei minha época de charges e tirinhas, para ver se encontrava algum humor no meu desenho, alguma irreverência. Me vali da malandragem da capoeira angola para me inspirar. Comecei a jogar com o desenho, com as personagens. Depois de vários testes, vários jogos, fui chegando no resultado desejado. E esse resultado foi o quê? Uma mistura fina: malandragem com hachura; irreverência com entalhe de madeira a fio.

“Eu nasci no dia de sábado,

no domingo eu caminhei.

Quando foi na segunda-feira,

capoeira eu joguei!”

Tales, ao final do livro você fala sobre a influência da capoeira em seu trabalho como gravurista e ilustrador. Você pode contar um pouquinho mais, como a capoeira acaba se entrelaçando aos seus momentos de criação?

Ah, a capoeira angola! No fim do ano de 2004, eu vi um cartazinho do professor Murcego, dando aulas na UFMG. Pensei comigo, na hora, que a capoeira angola era tudo o que eu precisava para dar uma reviravolta na minha vida. Fui entrando aos pouquinhos e a capoeira foi me transformando e fundamentando um guerreiro cheio de filosofia dentro de mim. Depois que eu conheci nosso mestre do grupo “Eu Sou Angoleiro”, Mestre João e sua esposa, Dona Lena, uma nova perspectiva se abriu. A capoeira gera uma filosofia incrível! Basta você ler os manuscritos do Mestre Pastinha ou as biografias dos grandes mestres. Homens sábios, humildes, vivíssimos, poetas, bailarinos, exímios lutadores e jogadores, acima de tudo. Há grandes exemplos e muita sabedoria na capoeira. Assim como a maldade e a ignorância também. Mas a sabedoria da capoeira é fazer você jogar com tudo isso. Como diz Mestre Pastinha: “capoeira é tudo o que a boca come”.

O jogo da capoeira é o jogo da vida. Ali na roda, aprendemos a trabalhar com nossas fraquezas e nossas forças. E tudo isso ao som de um bom berimbau, ou melhor, de uma bateria completa (8 instrumentos!), o cantador e o coral. Tudo isso dançando, jogando, lutando e cantando. As cantigas são lindas, algumas te levantam no céu, outras de prendem no chão. É muito axé, é muita alegria. É canto de liberdade. Como disse Mestre Pastinha: “capoeira é mandinga de escravo em ânsia de liberdade”.

(Gravura extraída do site bacteria.art.br)

E foi nesse meio que eu aprendi a cantar e dançar, a jogar e lutar. A capoeira foi me brotando outra mente, outro corpo. Foi levando ritmo e força pra minha gravura. Difícil explicar. Ela é uma coisa misteriosa, complexa, belíssima. É dança, mas não chega a ser uma dança completa, pois precisa-se lutar. É luta, mas ganha quem sabe jogar mais. Ela não é nenhuma dessas três coisas, mas é as três ao mesmo tempo. Foi nesse campo de mandinga que eu aprendi coisas que a universidade jamais vai me ensinar. Pois a universidade jamais vai conhecer o valor da capoeira. Suas lentes não conseguem captar a beleza da filosofia de matriz africana, pois sua raiz é europeia.

Uma coisa interessante é que, volta e meia, frente às aulas que dei na Universidade, ou quando sou convidado a falar lá, sempre cito Mestre João. Suas falas são mais contundentes do que muitos teóricos europeus. É preciso fazer mais poesia negra e mestiça. É preciso fazer mais filosofia negra e mestiça. O mundo vai sorrir e dançar mais.

Podemos encontrar seus trabalhos em galerias, nas páginas de livros, mas também nas paisagens da cidade. Existe uma linha histórica e/ou de sentido que vai conduzindo seu trânsito por esses diferentes espaços?

Ah, acho que não tenho distanciamento suficiente para falar disso. Quem sabe um amigo artista ou curador? Mas posso dizer que iniciei minha história com a gravura com as cidades históricas de Minas. Ouro Preto, Diamantina. Depois as metrópoles: Belo Horizonte. Depois, me intrigou muito a história do bairro Belvedere. Interessantíssima. Trata-se de uma região especial da cidade, que antes era protegida por lei. Ali passa(va)m os ventos alísios, que vem dos trópicos e sobem para o Equador. Eles refrescam o continente e limpam a superfície, se transformando em chuva nas regiões equatoriais. Na década de 1980, um prefeito de Belo Horizonte, em seu último dia de mandato, autorizou uma empresa a construir prédios na região. Atropelou a lei em troca de alguns apartamentos. Em poucos anos a região foi tomada por grandes condomínios de luxo. O resultado foi desastroso: o centro da cidade de Belo Horizonte (e várias de suas regiões) se transformou em uma ilha de calor e poluição. Os ventos alísios, que refrescavam e limpavam a cidade foram bloqueados pelos altos prédios da região do Belvedere e voltam à superfície 40 km depois.

(Carimbo sobre fotocópia sobre jornal, por Tales Bedeschi)

Toda essa história me intrigou muito. Depois fiquei me perguntando: quem desenha a paisagem da cidade? Quando se vai construir algum prédio, pensa-se na vista da cidade? A cabeça dos donos e advogados de imobiliárias são muito intrigantes também. Veja só um exemplo: quando se compra um apartamento, paga-se mais caro por aquele que tem uma vista melhor. Contudo, a coisa mais comum de se ver são prédios que são construídos na frente de outros prédios e tampam por completo a vista dos outros. As imobiliárias são as grandes vilãs da paisagem e das vistas das cidades. Elas ganham dinheiro com aquilo que destroem. Esse é o paradoxo mais intrigante na vida desse pessoal.

Como geminiano inveterado, além de falar muito nas entrevistas – já peço que me perdoem –, tenho uma ligação muito forte com o elemento ar. Portanto, o céu tem sido cada vez mais presente nas minhas gravuras. Faço muitas coisas azuis da cor do céu. Em 2011, vendi Ar de Belo Horizonte como souvenir para os viajores que deixavam a cidade (http://ardebelohorizonte.blogspot.com.br/). Se o Kandinsky disse que a linha é o ponto em movimento, o vento é o desenho do ar (http://www.talesbedeschi.com.br/2013/01/expansao-em-vento-liso-xilogravura.html). O céu é a dança das nuvens tocadas pelo vento  (http://www.talesbedeschi.com.br/p/fotografias-photograph.html).

Desafio Calango

E o Tales Bedeschi também aceitou o nosso Desafio Calango. Esse divertido nome a gente emprestou da cantoria popular de origem mineira, que vem lá da Zona da Mata, em que os contendedores se desafiam no improviso. Cantando quadras e sextilhas em compasso binário sobre o dia a dia da vida no interior. É derrotado o competidor que esgotar primeiro suas rimas. No nosso Desafio Calango, lançamos uma série de perguntas para os nossos convidados e os provocamos a contar um pouco de suas próprias histórias. No final, você leitor é quem acaba desafiado a embarcar em uma viagem pelas obras preferidas dos entrevistados, os locais onde produzem e as aventuras em que mergulham na hora de criar.

Para os destemidos que se aventuram por suas ilustrações, quais surpresas eles podem encontrar?

As surpresas que eles vão encontrar serão aquelas imagens e aqueles detalhes que o mundo ainda não mostrou pra eles. Lidar com a imagem é lidar sempre com um prazer inesperado. O mundo jamais irá se esgotar de imagens. Sempre vamos nos surpreender com ela. Diferentemente da linguagem escrita, as imagens não têm códigos limitados como as letras do alfabeto. A imagem é um agenciamento de uma sensação, de um sentido, de uma matéria. Uma pequena mudança e ela agencia outra coisa, ou seja, te leva para outro lugar.

(Matriz perdida invertida VIII, por Tales Bedeschi)

Qual o livro mais fantástico pelo qual você se aventurou? Quais aventuras você encontrou por lá?

Não leio tantos livros de literatura assim. É falta de tempo e muitas leituras acadêmicas. Mas, sem dúvidas, o mais fantástico foi o Grande Sertão Veredas, que de tão fantástico, optei por não termina-lo. Até hoje ainda não desvendei seu mistério por completo e, portanto, ele me atrai de maneira especial. Ainda tenho encontrado minhas aventuras lá. Está tudo em aberto.

(Gravuras do mineiro Arlindo Daibert, inspiradas no livro Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa)

Em quais peripécias você se envolve na hora de criar? Como é o lugar onde você cria?

Criar para mim é uma coisa de frestas. É entre uma reunião e outra. Um olhar e outro. Entre um trabalho e outro. Gosto de janelas para criar. Uma boa vista. Um céu pra ressoar. Depois de conhecer um artista novo. Ver aquele livro do Van Gogh de novo. Andar. Caminhar. Dirigir o carro é anti-criativo. Andar a pé dá o balanço pontual para as ideias irem se desdobrando. Como diz o Leminsky:

     Andar e pensar um pouco, 
que só sei pensar andando.
     Três passos, e minhas pernas 
já estão pensando.
      Aonde vão dar esses passos? 
Acima, abaixo?
     Além? Ou acaso 
se desfazem no vento
     sem deixar nenhum traço?

(Paulo Leminsky. Disponível em: http://www.elsonfroes.com.br/kamiquase/la_vie.htm)

Quem é a criança provocadora que te instiga a encarar o desafio de criar uma nova ilustração? Você pode nos enviar uma imagem que represente essa criança?

Além de tudo isso aí, Tales é Professor do IFMG, Campus Santa Luzia, Mestre em Arte e Tecnologia da Imagem pela EBA/UFMG. Atua frente a coletivos como o Kaza Vazia e a Casagravada. Participou de exposições e salões de gravura no Brasil, Cuba, Estados Unidos e Uruguai.

Voltar