Ler ou contar histórias? | Por Ilan Brenman | Aletria

Ler ou contar histórias? | Por Ilan Brenman

Publicado: 22/06/2017

Ler ou contar histórias? O que é melhor para formar leitores? O termo “melhor” é o mais adequado a ser usado nessa última indagação?

Como pude perceber, a narração oral é de extrema importância para a vida dos seres humanos em qualquer sociedade e em qualquer tempo. Minha vivência neste campo é muito intensa. Observo as crianças e jovens da era da informática, da televisão, do videogame, abrindo suas bocas, arregalando seus olhos, vibrando os seus corpos quando iniciamos algumas belas narrativas.

Não é apenas o contar sem livro que provoca as reações já descritas nas crianças. A leitura de livros infantis para públicos das mais diferentes faixas etárias também desencadeia algumas reações parecidas.

Nos primeiros anos desta dupla função contador/leitor, deparei-me com a pergunta: o que aproxima mais a criança do livro? A voz do contador de histórias ou a voz do mediador de leitura? A resposta apareceu alguns anos depois do início de meu trabalho como narrador oral e mediador de leitura, e, como sempre, as crianças foram a “revelação” dessa equação.

Em 1998, participei de um projeto de formação de educadores numa escola de Carapicuíba, cidade próxima a São Paulo. A instituição tinha, na época, mais de 400 crianças, de todas as idades, num sistema de internato. A finalidade era formar as professoras da educação infantil para que elas se tornassem mediadoras de leitura de livros infantis.

Após a formação das educadoras, continuei na escola por alguns meses, realizando formação em serviço, cujo objetivo era ler para as crianças juntamente com as educadoras. A minha presença era conhecida por todas as crianças, que têm um sistema de informação impressionantemente rápido. Quando passava por qualquer grupo de crianças que não faziam ainda parte daquela experiência, elas me identificavam como leitor de histórias.

Depois de alguns meses, ocorreu um episódio interessante: estava saindo de um momento de mediação de leitura com as educadoras e dirigindo-me a uma sala de reuniões, quando um grupo de 10 crianças, com idade por volta dos 9 anos, abordou-me e pediu que contasse histórias para elas; porém estava sem os livros naquele dia e resolvi, então, entrar numa sala e iniciar, “de boca”, uma “contação” de histórias. Foi muito prazeroso, divertido e, como sempre, a criançada vibrou.

(...) Muitas semanas se passaram e, novamente, um outro grupo de crianças, também com cerca de 9 anos de idade, parou-me e pediu histórias. Desta vez, eu carregava debaixo dos braços os livros que acabara de usar com as crianças menores.

Entrei na sala com a turma e comecei a espalhar os livros pelo chão, dizendo que eles poderiam escolher os livros que queriam que eu lesse. Feitas as escolhas, comecei as leituras. Fiquei meia hora com a turma e, ao ir embora, resolvi deixar os livros com eles, já que faziam parte do acervo doado ao educandário. Assim que levantei do chão e comuniquei que iria embora, mas deixaria os livros, as crianças, num ato espontâneo (já observado muitas e muitas vezes), foram até os livros. Cada criança pegou um e o abriu.

Lentamente, fui saindo da sala. Todas as crianças da turma tinham a cabeça voltada para os livros. Fiquei alguns instantes na porta olhando aquela cena e, de repente, veio o estalo. Tinha compreendido a diferença pedagógica entre contar “de boca” e ler em voz alta as histórias dos livros às crianças.



(Zélia - Christelle Vallat, com ilustrações de Stéphanie Augusseau)

O contador de histórias chega com seu corpo, sua personalidade, suas narrativas, no momento da apresentação. Ao encerrá-la, deixa com os outros muitas coisas, porém sua corporeidade retira-se do espaço da performance. As crianças entram em contato com o contador de histórias e o querem de volta, mas não sabem quando isso será possível. Talvez dali a um mês, um ano, ou nunca mais. Vivo isso constantemente, quando as crianças perguntam-me quando voltarei para a escola na qual fiz uma “contação” de histórias. A resposta depende de muitas contingências.

Já na mediação de leituras às crianças, a corporeidade do mediador vai embora, mas os livros permanecem fisicamente, quando pertencem à instituição, ou no imaginário de quem ouviu e viu as histórias. As crianças sabem, agora, que aquele objeto chamado “livro” é portador de narrativas que provocam muitas reações.

Toda vez que pratico este ato chamado mediação de leitura, seja com crianças, adolescentes ou adultos, nas favelas, hospitais e escolas, seja ministrando oficinas para professores, quando espalho os livros e termino as leituras, percebo que a movimentação sempre se repete, com as mãos inquietas dos ouvintes querendo pegar no livro e explorá-lo. 

Quando lemos uma história e, no final, fechamos o livro, estamos deixando dentro dele as nossas marcas, nossas vozes aprisionadas nas páginas. Na ausência do leitor, os ouvintes retornarão ao livro, agora como leitores solitários, buscando resgatar naquelas páginas a nossa presença. O que encontrarão? Não sei exatamente, mas o que posso imaginar é que vão à procura daquele momento proporcionado pela leitura em voz alta. E talvez esse movimento permita que eles encontrem, dentro do eco de um outro, a sua própria voz. Talvez seja esse, possivelmente, o “pulo do gato” no caminho para a formação de leitores a partir da técnica da leitura em voz alta.

(...) Essa entrada no mundo dos sentidos das palavras traçadas, seja para as crianças que ainda não sabem ler, seja para os jovens e professores afastados da literatura, seja para adultos “analfabetos”, talvez tenha que se dar, num primeiro momento, pela voz de um outro, voz que libertará as letras aprisionadas e emudecidas no papel.

Mas será que apenas ler o livro em voz alta bastaria para aproximar a população não-leitora dos livros de literatura? 

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Esse texto foi retirado do livro Através da vidraça da escola: formando novos leitores, de Ilan Brenman e publicado pela Aletria. Disponível na nossa lojinha: https://www.aletria.com.br/apoio-ao-educador/Atraves-da-vidraca-da-escola

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