Literatura das infâncias | Por Celso Sisto

Publicado: 29/06/2017

Sempre há em nós a possibilidade da renúncia. Primeiro renunciamos à solidão. Depois à ação do tempo, depois à impermeabilidade. E pronto! Estamos frente a frente com o livro. Poderia ser um livro qualquer. Mas, é claro, não é! É um livro também para crianças! Notem que é também e não só para. Todas as coincidências são insuficientes para nos convencermos de que o livro que temos nas mãos é obra do acaso! Os motivos levam à crença de que lemos também para termos memória. Para nos enredarmos na História. E adquirimos todos os direitos de fazermos o caminho do verso e do reverso, principal ou com atalhos. Mas vamos sendo lidos pelo livro: isso é inevitável!

Nesse inventário das palavras, vão sobrando margens. Vão beirando a página nossas tantas histórias. E é sempre no final da linha que o olho encontra esse outro tempo. Tempo que flui ao contrário. Que vai pegando nossa idade e diminuindo, diminuindo até nos colocar de frente, no tamanho exato de cada um. Sim, porque precisamos estar de um certo tamanho para ler Alice no país das maravilhas, de outro pra ler Meu pé de laranja lima, de outro para O Pequeno Príncipe, e de tantos outros para tantos outros. É essa condição elástica de voltar e tornar a voltar, de mudar e mudar de lugar, de ver, ora daqui ora dali, que confere à literatura “dita” infantil uma atemporalidade, uma ancestralidade, uma universalidade que dispensa o rótulo de “isso é livro pra criança!”. E tenho visto muita gente grande se surpreender com livro de criança!

Mas, em contrapartida, há quem leia livro desse tipo porque o livro é pequeno, porque tem poucas páginas, porque a leitura é rápida. São até comuns as justificativas do tipo “é o que o meu tempo me permite ler”. Ficou também instituído que só professores que lidam com crianças é que leem esse tipo de livro. Ou os especialistas da área. Ou os críticos. Quem se aproxima do livro, tendo como objetivo apenas o cumprimento de prerrogativas profissionais, na certa, afasta da leitura o seu maior aspecto – o lúdico! (...)

Ainda na esteira do preconceito: basta um livro ter ilustrações para ser logo tachado de livro infantil, para ser recusado por adolescentes e adultos com a mais firme crença de que esses são livros para crianças, coisa que já deixaram de ser há muito! (...) Há ainda a desculpa de que livro para criança é sempre fantasioso e alienante. Mas, fantasioso deveria ser compreendido como o lugar da imaginação criadora, sempre intimamente ligado à arte! O fato de se ceder espaço à fantasia não torna um livro menos ou mais real. O que separa a realidade da fantasia é uma malha muito fina! E onde uma começa e a outra acaba, nem se fala! Ainda mais que ambas só têm transparência na linguagem.


(Na Beiradinha - Agnès de Lestrade, com ilustrações Valeria Docampo)

Foi-se o tempo em que o livro infantil era cor-de-rosa! Na contemporaneidade, alguns grandes escritores ousaram trazer para esse universo uma outra linguagem, uma outra forma, uma outra temática que abalou o status de literatura “infantil”. Preferimos pensar que a literatura, como arte da linguagem, não pode abrir mão dos elementos formais e estéticos. Essa literatura – que se quer só literatura – para toda e qualquer idade! Os elementos que fazem um livro poder ser lido por uma criança, não podem nem devem afastá-lo do público adulto e, assim, propiciar a criação de uma série de rótulos literários.

Uma vez tocados pelo condão dos mitos, das lendas, das fábulas, dos contos de fadas e contos populares é impossível não voltar ao livro das infâncias. E temos, todos, muitas infâncias, a cronológica inclusive! E precisamos preencher o espaço poético dessa lacuna que nos separa – adultos – da infância, reaprendendo a olhar, porque, com o tempo, vamos perdendo a nitidez dos detalhes, nossas leituras de infância vão ficando como filme velado, fantasmas só com contorno e sem definição, até esquecermos de como é ser menino! Precisamos acreditar que somos, todos, um pouco Peter Pan. Voltamos a essas leituras para vivenciar o prazer de não crescer, tendo crescido!

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Esse texto foi retirado do livro Textos e pretextos sobre a arte de contar histórias, de Celso Sisto e publicado pela Aletria. Disponível na nossa lojinha: https://www.aletria.com.br/apoio-ao-educador/Textos-e-pretextos-sobre-a-arte-de-contar-historias

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