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Literatura infantil e prevenção do abuso sexual

Publicado: 22/05/2018

No mês de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, o Blog da Aletria traz o repost de nosso bate-papo com Áurea Domingues, psicóloga do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Áurea foi uma das profissionais que colaborou com as revisões técnicas do livro "Não me toca, seu boboca!", de Andrea Taubman, vencedor do Prêmio Neide Castanha. 


Para prevenir que abusos aconteçam, é importante ensinar às crianças e aos adolescentes a diferenciar uma brincadeira de uma potencial situação de risco e fortalecer suas capacidades para que possam se defender e denunciar quando uma pessoa age de maneira inadequada com elas.

No entanto, falar sobre este tema é, muitas vezes, uma tarefa bastante difícil para pais, mães, familiares e demais profissionais da área de educação, saúde e assistência social. Para chegar no formato final da obra "Não me toca, seu boboca!", Andrea Taubman e Thais Linhares (autora e ilustradora) contaram com a consultoria de profissionais que trabalham dia e noite pela proteção de crianças e adolescentes. Psicólogos, juízes, advogados e a fundação Childhood Brasil foram importantes parceiros para a criação desse livro.

Fique abaixo com nossa conversa com Áurea Domingues, psicóloga do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e uma das colaboradoras com as revisões técnicas dos textos que contam a história de Ritoca, personagem de "Não me toca, seu boboca!".


1) A literatura, com sua ludicidade, sempre foi importante mediadora para temas delicados como a morte e a sexualidade, por exemplo. Como um bom livro pode se tornar aliado de conversas difíceis entre pais e filhos? 

A literatura infantil é um excelente aliado para conversas difíceis no âmbito familiar, pois explora o imaginário infantil de uma forma lúdica e leve. Assim, um bom livro evita impactos negativos na mente da criança ao abordar assuntos delicados, como é a questão do abuso sexual.






2) No caso da temática da violência sexual contra crianças e adolescentes, a delicadeza do assunto exige um cuidado especial para elaboração do livro, a fim de informar, orientar e proteger nossas crianças. Enquanto psicóloga, como foi o processo de colaborar para a criação de "Não me toca, seu boboca!"? Quais foram os maiores desafios? 


Me senti muito honrada em poder participar da elaboração do livro orientando a autora Andrea Viviana Taubman com questões da área da Psicologia sobre a dinâmica do abuso sexual. O primeiro encontro com a escritora foi muito emocionante. Fizemos uma breve reunião no ano passado, em que foi apresentada a sala de atendimento às crianças vítimas de abuso sexual no Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. À medida que Andrea lia o seu texto (primeiro esboço do livro), eu me lembrava dos casos difíceis que já atendi. Foi difícil evitar as lágrimas, pois o que ela descrevia no livro exemplificava os processos em que eu atuava. Construímos ali uma excelente parceria e, desde então, fui acompanhando e opinando na elaboração do texto e também nas excelentes ilustrações da Thais Linhares. Foi importante explicar que na dinâmica do abuso, muitas vezes, o abusador tenta ganhar a confiança da criança se aproximando de forma doce, delicada, com elogios, oferecendo presentes e utilizando um linguajar infantil. Assim, fica difícil para a criança identificar que está sofrendo um abuso. O maior desafio foi traduzir essa dinâmica do abuso para o livro com um vocabulário de fácil assimilação para as crianças. 







3) Por que é importante trazer esse assunto para conversas dentro de casa?


É muito importante que esse assunto seja discutido em casa, para que as famílias possam trabalhar a prevenção. Assim, os responsáveis podem ensinar a criança a identificar uma situação abusiva. Por exemplo, quando um adulto pede para tocar suas partes íntimas em troca de presentes ou exigindo que a criança não conte para ninguém; quando um adulto pede para a criança tirar fotos nua ou com roupas íntimas; quando um adulto marca um encontro sem o conhecimento dos pais; é preciso dizer também para criança ter muito cuidado com quem conversa na internet e jamais enviar fotos ou marcar um encontro com um adulto desconhecido.

Além disso, muitas crianças não se identificam como vítimas de abuso e se sentem culpadas, acreditando que são provocadoras dos fatos. Como consequência, sentem vergonha e medo de revelar. Vale ressaltar que muitos casos ocorrem no ambiente intrafamiliar, sendo mais difícil que a criança revele para um adulto de sua confiança. Nesse sentido, quando o assunto é tratado dentro de casa, empodera a criança para identificar, se defender e revelar uma situação de violência sexual.






4) Você acha que o abuso infantil ainda é visto como uma questão privada e não como uma causa de interesse público? Para você, qual a importância de trazer essa discussão para dentro de produtos culturais como livros, filmes etc? 



Sim, infelizmente a questão do abuso infantil ainda é vista como um tabu. 
É um tema delicado e enfrenta resistência nos espaços de discussão do poder público. Mas essa é uma questão que precisa ser mais discutida publicamente na sociedade.  A criança vítima de abuso merece respeito e proteção, e jamais deve ser culpada pelos abusos. A culpa nunca é da vítima. Entretanto, vemos crianças sendo culpadas, dentro de casa e até na rede de garantia de direitos. Por outro lado, o abusador não tem cara, está presente em qualquer aparência física, etnia, religião, gênero, idade e classe social. Nesse sentido, nem sempre é facilmente identificado. Sendo assim, é muito importante que esse assunto seja tratado em livros, filmes, novelas como forma de prevenir que essas situações ocorram ou que fiquem impunes.  


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