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O Barbazul de Anabella | Conversa com a autora

Publicado: 05/06/2018

Querido leitor, separe um tempinho na sua vida corrida. É hora de conversar com Anabella López, autora de Barbazul, obra vencedora do prêmio de melhor Tradução/Adaptação Reconto da Fnlij - Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Nascida em terras argentinas, faz tempo que Anabella pousou no litoral sul pernambucano, de onde cria lindas obras em formato de livro ilustrado, infantil ou não, depende de quem está lendo. A escritora também não é muito afeita a essas classificações de faixa etária, mas sim ao poder arrebatador e sanador das formas e das histórias. Fique com nossa conversa fresquinha: 



A obra Barbazul pelas lentes da fotógrafa Bárbara Schall. 

1) Em uma época em que o movimento das mulheres está cada vez mais forte, você dedica Barbazul a todas nós. Pautas como a conquista de direitos das mulheres e a luta contra a violência de gênero sempre fizeram parte do campo artístico, como no cinema, na arte da performance, na literatura, entre outras formas de expressão. Entretanto, no livro ilustrado essas temáticas ainda são pouco exploradas, por serem consideradas "difíceis" para leitores de todas idades, incluindo crianças. Para você, qual a importância de trazer essas temáticas para os livros ilustrados? Quais são os principais desafios?


Trazer essas temáticas para o livro ilustrado é algo fundamental. Primeiro porque existe uma tendência muito grande em achar que livro para a infância não pode ou não deve falar sobre alguns assuntos. Existe uma visão muito limitada do que a criança pode, consegue ou deve interpretar. E essa visão limitante vem dos adultos, não da criança. A visão da criança é muito mais aberta e receptiva a qualquer temática. Você faz uma pergunta para uma criança, ela responde com total liberdade, muitas vezes saindo do plano do real. E ela consegue fazer esse pulo contínuo entre o real e o imaginário com maior facilidade que os adultos que, em geral, vão perdendo essa capacidade com o tempo. Antes de respondermos uma pergunta, nós adultos pensamos "O que será que eu tenho que responder?”, " O que é certo? O que é errado?" Temos vários condicionamentos que a crianças não têm. Os assuntos "delicados" não devem ser silenciados nos livros para crianças. Trabalhar essas temáticas é fundamental para que a gente ajude a criança a crescer com a visão aberta, que a gente consiga acompanhar o aprendizado da criança, que a gente consiga aprender com elas. Isso seria uma troca muito saudável. 



Ilustração de Barbazul em formato de Gif, por Bruna Lubambo.


O principal desafio dessa obra foi exatamente criar um livro com este tipo de conteúdo, um livro que toca em temáticas tabus que a maioria dos adultos não quer discutir. Imagina como é difícil você colocar isso em um formato de livro ilustrado e ainda conseguir que ele seja editado! O principal desafio é fazer com que o público se abra, que seja capaz de levar essas temáticas até as famílias e seus filhos.  Eu fiquei muito surpresa do Barbazul ter ganhado tantos prêmios aqui no Brasil, porque não foi um livro feito com essa intenção. Quando você faz um livro com essas temáticas, você sabe que o livro pode ser totalmente rejeitado, né? Mas eu acho que o Barbazul vem em um momento crítico, socialmente e politicamente falando, então as pessoas estão em crise. E nessas crises um ponto positivo é que a gente consegue repensar por completo alguns modelos nos quais a gente acreditava. 




A obra Barbazul pelas lentes da fotógrafa Bárbara Schall. 



2) Como você já mencionou, a história de Barba Azul sempre te atraiu muito. Como foi recontar um clássico de Perrault? Conta pra gente um pouquinho mais sobre seu processo de criação.


Barba Azul é um conto que eu sempre admirei, sempre gostei muito, por isso meu trabalho com ele foi muito orgânico. Recontá-lo foi quase um processo de sanação interna. Sanação de tantas violências, de processos difíceis pelos quais eu passei e tive que atravessar. O fato de conseguir criar e tirar uma obra de arte de um processo negativo faz com que você consiga transmutar, fazer com que um momento ruim da sua vida vire um logro, um processo satisfatório. Eu acho que no fim das contas é isso que nos resta, fazer o pó virar ouro.

Como eu disse, o processo de criação do livro foi orgânico, rápido. Primeiro veio o processo  de pensamento, de trabalhar sobre a adaptação, sobre como ia ser esse meu olhar particular… eu li muito, muito, muito. Foram mais de seis meses de leituras constantes para começar o projeto. Mas na hora de começar a ilustrar, produzi as imagens do livro em menos de 20 dias. Esse livro estava preso dentro de mim, na hora de sair, ele saiu de uma vez. Foi isso, um produto de muitas experiências. 


A obra Barbazul pelas lentes da fotógrafa Bárbara Schall. 


3) Celso Sisto, contador de histórias e escritor, já disse: "Foi-se o tempo em que o livro infantil era cor-de-rosa! (…) Os elementos que fazem um livro poder ser lido por uma criança não podem nem devem afastá-lo do público adulto e, assim, propiciar a criação de uma série de rótulos literários.”  Como você enxerga esses rótulos? Em que medida são válidos e em que medida são limitantes? 


É de uma calosidade muito antiga essa visão do livro, da limitação por faixa etária. Eu acho isso uma total subestimação do leitor. Infelizmente, esse é um olhar sobre o livro que a gente continua tendo aqui na América Latina, mas que já não se tem em países europeus, em países onde os livros não tem esses limitações. Porque o livro ilustrado precisa ser para crianças e não pode ser para adultos? Por que não pode existir um livro ilustrado erótico?  Por que um adulto não pode comprar um livro ilustrado infantil simplesmente porque ele gosta? Acho que essas regras são muito antigas e não se aplicam mais. Até porque é muito tonto pensar que dentro dos adultos não tenha ainda uma criança. E é muito limitante você falar para uma criança que, por sua idade, ela não pode ler um determinado livro, sendo que muitas vezes as crianças com mesmas idades estão em processos de aprendizagem diferentes. Então é realmente uma regra que não soma, só subtrai. 




A obra Barbazul pelas lentes da fotógrafa Bárbara Schall. 



4) Nas ilustrações de Barbazul, você cria uma atmosfera misteriosa que prende o leitor entre texturas, sombras, pretos, azuis e vermelhos (usados em momentos bem específicos da narrativa). Quais foram as técnicas de ilustração utilizadas? 

As técnicas que eu utilizei foram colagem, tintas acrílicas, lápis de cor, canetas… enfim, todos os elementos que eu tinha à mão iam parar no livro. É o que a gente chama de técnicas combinadas. Na verdade, eu acho que o uso de várias técnicas em uma só imagem faz você criar algo muito mais surreal, uma imagem que você não entende como foi produzida. E eu gosto muito disso, de você capturar o leitor também pelos olhos, sabe? Que ele fique querendo olhar, tentando descobrir como essa imagem funciona, como ela foi feita… e que ele não consiga. É quase como um ato mágico. Eu acho isso muito interessante, em especial para esse conto que tem tudo a ver com essa relação simbólica. 



Ilustração de Barbazul em formato de Gif, por Bruna Lubambo.


5) Você pode falar um pouco mais sobre as diferenças entre os processos de um ilustrar um livro escrito por outra pessoa e um livro escrito por você? No seu caso de escritora-ilustradora, como se dá a relação de criação de texto e imagem? 


Eu acho que sou autora de todos os livros nos quais eu trabalhei. Na verdade, o fato de eu fazer mais livros ilustrando histórias de outros é porque realmente é o formato que mais acontece no mundo editorial, você ser chamado para ilustrar o texto de outra pessoa. É mais complexo, mais difícil você fazer um livro integralmente. Mas eu já tenho quatro livros de autoria integral publicados, o que não é pouco! Mas temos que viver. Então ilustrar o livro de outros é para termos uma estrutura econômica que permita passar por esse processo mais intenso e demorado da criação integral. Às vezes criar um livro totalmente, imagem e texto, pode levar um ano. O mercado editorial não está preparado para sustentar um autor para terminar um livro durante um ano. 




A obra Barbazul pelas lentes da fotógrafa Bárbara Schall. 



O processo de criação só ilustrando um texto e o processo quando você ilustra e escreve é totalmente diferente. Como autora integral, a relação da criação do texto e imagem é muito caótica e porosa. A imagem entra como texto visual e o texto escrito provoca um imaginário. Às vezes é uma palavra que origina uma imagem, às vezes uma imagem que provoca a palavra… então você vai costurando uma com a outra, ao mesmo tempo. Isso deixa realmente uma relação mais rica de contraponto, na verdade você não tem a leitura do texto separada da leitura da imagem, você tem a relação das duas leituras. Então é muito mais complexo. Isso faz com que o posicionamento do leitor seja mais completo, mais integral. Querendo ou não, o processo de produção de um livro que tem o texto separado da imagem é mais limitante. Você recebe um texto dividido em páginas, aí você tem que ilustrar cada página… às vezes texto e imagem estão falando a mesma coisa, então você não está criando nada novo, está sendo redundante. A imagem passa a ter um valor muito mais de adorno, de acompanhar o texto, do que realmente propor um novo texto, um contraponto. Para mim, é muito mais interessante a criação de um texto e imagem juntos, de autoria integral. 



Ilustração de Barbazul. 

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Folheie abaixo a obra:  



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