“O contador de histórias também narra mundos tristes” – Entrevista com Maristela Papa | Aletria

“O contador de histórias também narra mundos tristes” – Entrevista com Maristela Papa

Publicado: 20/05/2020

A educadora fala sobre como contar histórias difíceis e a importância das escolas no combate ao abuso infantil

Maristela Papa chegou ao mundo das histórias quando se tornou mãe e, depois de apresentar aos filhos os diferentes universos dos livros, nunca mais deixou de contar histórias. Hoje, a professora, artista plástica e escritora encanta crianças e adultos por onde passa, distribuindo talento em forma de palavras, versos e músicas ao lado do marido e músico, William Reis. Eles também fazem um importante trabalho na Associação Amigos das Histórias, em Brasília.

Mas, a dupla de artistas também já contou muitas histórias difíceis. Eles trabalham com crianças e famílias na Vara de Infância de Brasília e sempre são convidados a contarem e cantarem histórias com temas áridos como o abuso infantil, o abandono e a violência. Para a educadora, entrar nesse terreno dos temas difíceis faz parte da missão do contador de histórias, que fala sobre os encantos do mundo, mas também sobre suas sombras.

Confira a entrevista com Maristela Papa:

Qual a importância das histórias para falar com as crianças sobre temas difíceis, como o abuso infantil?

O mundo do “era uma vez” é muito lindo, mas também existem os mundos sombrios e tristes. O contador de histórias precisa entrar nesses terrenos para chegar às crianças. As histórias são curativas: é bom para quem ouve e melhor para quem conta. A criança ou o adulto, quando ouve uma história, se refaz. Eu acredito que histórias possibilitam libertação de problemas. Como contar histórias difíceis? Conte despretensiosamente, sem preocupar com um objetivo. Conte como se tivesse vivido aquilo, como se aquela situação fosse sua. Coloque-se no lugar daquela criança. É difícil fazer isso quando não se viveu a situação, mas também é muito ruim quando a gente não se apossa da história.

Você pode contar alguma experiência de resposta das crianças após contação sobre o tema do abuso infantil?

Em 2008 fui convidada a trabalhar em um evento do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e contar trechos do estatuto. Quando me deparei com o livro e vi que eram histórias muito pesadas eu pensei que não conseguiria contar. Uma das que me chamou mais a atenção foi a história de quatro meninas que eram abusadas pelo padrasto com a autorização da mãe. E quando eu li aquilo eu pensei que não era possível que isso realmente existisse. Fui contar essa e outras histórias e foi o momento mais difícil da minha vida como contadora. Me preparei selecionando trechos das falas das crianças e, durante a contação, os olhares de identificação me cortavam o coração. Eu via as crianças se reconhecendo naquelas tristes histórias e, depois de um tempo, algumas vieram conversar comigo dizendo que também sofriam violências.

Qual a importância do professor e da escola no enfrentamento do abuso infantil? Você acha que as escolas estão preparadas para lidar com o tema?

A maioria das denúncias sobre abuso infantil e maus tratos é feita por professores, principalmente de escola pública. Ainda precisamos aprender muito porque as escolas não estão totalmente preparadas. O tema é duro e machuca tanto quem passa pela violência, quanto quem ouve sobre ela. Mas, estamos evoluindo e temos boas ferramentas, como o livro “Não Me Toca Seu Boboca”, que ameniza um pouco essa dureza, que traz ludicidade para um tema difícil.

Se pudesse dar uma dica ou uma “regra de ouro” para os professores lidarem com o tema na sala de aula, qual seria?

É só uma: a empatia. Se colocar no lugar daquela criança e pensar: se você fosse aquele menino ou menina como gostaria de ser acolhido? Ouçam as crianças, pois elas falam seja pelo desenho, pelas cicatrizes, de formas diversas e diretas, mas nem sempre nós professores queremos ver. Acho que a regra é acreditar que quando você está ali diante de uma criança tentando resolver o problema dela, você pode estar ajudando a resolver um problema do mundo. Conte, procure ajuda e tenha empatia.


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