QUEM TEM MEDO DE ESCURO? | Aletria

QUEM TEM MEDO DE ESCURO?

Publicado: 10/07/2019

*Celia Abicalil Belmiro


Crianças têm medo de escuro? Crianças sofrem pressão de amiguinhos na escola? Crianças ficam tensas quando está na época do desfralde ou de tirar a chupeta? E a morte, as crianças são afetadas por esse momento tão radical na vida do ser humano? Esquecemo-nos, muitas vezes, de que as crianças também têm suas diferenças e sensibilidades distintas. Por isso devemos nos reportar a elas na pluralidade que elas merecem. Precisamos nos perguntar, em primeiro lugar, de que forma entendemos esse mundo infantil tão complexo para, então, com a necessária delicadeza, poder apreciar a importante presença da literatura na vida infantil. 


Em primeiro lugar, é bom lembrar que as crianças são tão idealizadas que, de uma maneira geral, nos referimos a elas no singular, temos uma ideia de “a criança”, como se todas respondessem da mesma forma. Essa redução impede, muitas vezes, um olhar mais agudo para a variedade de questões infantis que não damos conta de perceber. identificar


A literatura constrói mundos imaginários e, por meio deles, as crianças podem entender, muitas vezes, algo que não sabiam formular. Nós, adultos, também experimentamos um sentimento de maior consciência de nós mesmos, das coisas e do mundo depois da leitura de um livro que nos toca e nos sensibiliza. Muitas perguntas podem ser elaboradas ou, até mesmo, respondidas, sem que passem pelo crivo de uma moral social, de uma ordem instituída, de padrões externos a nós mesmos e que as narrativas nos dão a ver. Só assim é possível experimentar verdadeiramente o sentido do que seja absorver literariamente a vida.


Muito se diz que o mundo infantil é pura fantasia, é só prazer e alegria, mas sabemos que não é. O humor e a brincadeira são fundamentais para a construção da subjetividade das crianças (e dos adultos) mas precisamos de mais. São as experiências radicais na infância que nos tornam esses humanos que somos. Como conversar sobre a morte de um familiar? Há livros de excelente qualidade literária e estética que abordam temas como perdas, ausência do avô, de um animal de estimação, enfim, sobre a morte, com a delicadeza e sensibilidade necessárias. São sentimentos difíceis de serem vividos mas que precisamos enfrentar. Adultos, quando crianças, tiveram (ou ainda têm) medo de escuro? Seria suficiente dizer que escuro não faz mal e pronto? O mundo dos sentimentos não se resolve pelo viés racional e, portanto, os afetos, isto é, o que nos afetam, precisam de ser revelados para ser compreendidos. E a literatura infantil permite ao ouvinte e ao leitor mirim enfrentar assuntos que são muito delicados, como, por exemplo, o maltrato, o bullying, entre tantos outros. 


Os livros estão à disposição para dialogar com as crianças sobre mundos difíceis e que podem responder, muitas vezes, a questões que ainda não estão claras, mas sentidas. Quantos livros nos ensinam o que não imaginávamos que precisávamos saber! Quando as crianças passam pela experiência de leitura em que as palavras e as imagens são exploradas com a devida qualidade estética e literária, uma coisa é certa:  elas terão mais bagagem para estabelecer diálogo com os outros e dar forma ao mundo em que vivemos.


*Professora do Programa de Pós-Graduação Conhecimento e Inclusão Social em Educação da Faculdade de Educação da UFMG, pós-doutorado pela University of Cambridge-UK e pesquisadora do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita - CEALE / UFMG. Participa de diferentes pesquisas sobre literatura infantil, com publicações sobre livros ilustrados para crianças e jovens leitores, literatura infantil e mídia e literatura infantil e a contemporaneidade, bem como sobre o desenvolvimento de competência literária do professor.


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