TRADIÇÃO ORAL #2: QUADRINHAS | Aletria

TRADIÇÃO ORAL #2: QUADRINHAS

Publicado: 03/02/2017

Entusiasta da tradição oral, a Aletria não disfarça seu apreço pela métrica, pelo ritmo e pelas temáticas ligadas à cultura popular e sua oralidade. Passeando pelas estantes da Aletria encontramos as famosas quadrinhas, tão ao gosto popular; os haicais, que vindos da cultura oriental encontraram solo fértil em terras brasileiras, onde foram reinventados aos montes; a literatura de cordel, que, com sua famosa redondilha maior, cantou e ainda canta o nordeste brasileiro; os tangolomangos e contos cumulativos, que sabem como ninguém encantar crianças e adultos em rodas de contação de histórias.


Para manter a pose de entusiasta da causa, o Blog da Aletria traz uma série de breves posts sobre literatura e tradição oral, trazendo sempre a produção de alguns autores que brincam com o ritmo da palavra que se lê, da palavra que se fala!


Em nosso primeiro post, falamos um pouco sobre a literatura de cordel e seu mestre: Leandro Gomes de Barros. Considerado o pai da literatura de cordel no Brasil, Leandro escreveu o clássico folheto “O Soldado Jogador”, o primeiro cordel brasileiro que se tem notícia. Continuando nossa série, vamos falar de velhas conhecidas no Brasil e em terras d`além mar, as simpáticas “Quadrinhas”.



Batatinha quando nasce

se esparrama pelo chão.

Carrego papai no bolso

e mamãe no coração…



Se, entre essas métricas da tradição oral que tanto me encantam, eu tivesse que escolher aquela que mais mexe com “as coisas lá de dentro”, eu diria que é a quadrinha. A quadrinha, ágil e sagaz, sem meias palavras, já nos alfabetizou, já nos ajudou a conquistar o primeiro amor e até já se intrometeu a catequizar índios brasileiros. Sim! Por ser bem simples e fácil de assimilar, a quadrinha, junto ao teatro, a música e a dança, foi muito utilizada pelos jesuítas como ferramenta de catequização.


Acima, trecho do livro "O Menino Maluquinho". Maluquinho também já enviou bilhetinhos de amor em forma de quadrinhas!


Acho que as cantigas de roda, as improvisações (às vezes de pé quebrado!), o jogar versinhos e as adivinhas, tão presentes na nossa infância, cultivaram tanto as quadrinhas no nosso miolo, que o ritmo da gente é em redondilha maior e rima em ABCB, como em uma quadrinha!



Sobre a métrica da quadrinha:


A quadrinha é simples, sem rodeios: 4 versos em redondilhas maior rimando em ABCB. Em outras palavras, cada um dos versos possui sete sílabas poéticas. Já as rimas dos versos são construídas normalmente na forma ABCB ou ABAB. Ou seja, rimam-se o segundo e o quarto versos. Observe essas quadrinhas de Fernando Pessoa no livro “Novas Poesias Inéditas & Quadras ao Gosto Popular”, Ed. Itatiaia:


Cantigas de portugueses   A

São como barcos no mar -  B

Vão de uma alma para outra  C

Com riscos de naufragar.  B


____


Quando te apertei a mão  A

Ao modo de assim-assim,  B

Senti o meu coração  A

A perguntar-me por mim.  B


____


Se eu te pudesse dizer  A

O que nunca te direi,  B

Tu terias que entender  A

Aquilo que nem eu sei.  B



Gostou? Na estante da Aletria também tem quadrinhas! Tatu-Balão, escrito por Sônia Barros e ilustrado por Simone Matias, é todo escrito em quadrinhas do início ao fim. Uma graça! A obra já foi reconhecida pela Seleção Itaú Criança 2015, foi selecionada pela Prefeitura de Belo Horizonte 2016, conquistou o selo Altamente recomendável FNLIJ e estrela o Catálogo Literário Autorias da Diversidade SEE-MG 2016. #voaTatu! 






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