TRADIÇÃO ORAL | Aletria

TRADIÇÃO ORAL

Publicado: 20/01/2017

... de conto em conto e reconto

Procurou-se analisar a questão a partir do pressuposto de que a literatura de cordel nordestina contém mais afinidade com os romances orais do que com os cordéis lusitanos, devido à característica poética presente nos dois gêneros.

Você sabia que contos, provérbios, canções, mitos e lendas também podem ser considerados patrimônio cultural?

Cada povo encontrou meios de transmitir conhecimentos e costumes e até de registrar momentos da própria história através da oralidade. A mídia mesmo teve suas origens assim. Ainda na antiguidade, as notícias eram comunicadas em praça pública para grandes multidões de maneira falada e, no boca a boca, se espalhavam por todo o povoado.

Artifícios como métrica, rima e ritmo são utilizados desde sempre na transmissão oral de informações, de forma a tornar essa transmissão mais eficiente e os conteúdos narrados mais fáceis de memorizar.

Algumas estruturas e formas de contar foram se constituindo entre os povos através da repetição do conteúdo de maneiras específicas, transformando-se em verdadeiros repertórios e a esses repertórios passados de geração a geração dá-se o nome de tradição oral.

O cordel, literatura muito popular aqui no Brasil, sobretudo na região Nordeste, traz impresso em si essas marcas. Suas origens apontam para os romances orais, ou rimance (forma arcaica da palavra romance) construção literária típica da Península Ibérica que equivale à balada europeia, poema épico curto e sempre cantado. E a gente aproveita a deixa do post sobre o mestre cordelista Leandro Gomes de Barros e apresenta aqui mais uma de suas obras:


As Misérias da Epocha

Se eu soubesse que esse mundo

Estava tão corrompido

Eu tinha feito uma greve

Porem não tinha nascido

Minha mãi não me dizia

A queda da monarchia

Eu nasci foi enganado

Pra viver n'este mundo

Magro, trapilho, corcundo,

Alem de tudo sellado.

Assim mesmo meu avô

Quando eu pegava a chorar,

Elle dizia não chore

O tempo vai melhorar.

Eu de tolo acreditava

Por innocente esperava

Ainda me sentar n'um throno

Vovó para me distrahir

Dizia tempo ha de vir

Que dinheiro não tem dono.

- 2 -

Só se ver hoje no mundo,

Agonia e desispero,

Fiscaes e procuradores

E numero de cobradores

Pondo tudo amedrontado

E para mais nossa melhora

Qualquer que nascer agora

O pai há de o ver sellado.

Dizem os filhos da Candinha

Que na camara dos deputados

Querem formar um projecto

Para os homens serem sellados,

Isso faz repugnar!

E pudemos acreditar.

Que o imposto não nos larga,

Podemos aguardar as horas

Que montem em nós com esporas

E nos façam carregar carga.

Havemos de andar agora

Do imposto amendrontados,

Com mil e cem de estampilhas

Nos chapeus e nos calçados

O que havemos de fazer?

Já não se pode soffrer

O fio da cruel fome

Os homens todos alerta

O Estado nos aperta

O municipio nos come.

 

*Cordel de data anterior a 1906.

*Coleção Digital: Folhetos Raros - Poemas em Fragmentos

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