Tradição oral e Literatura: #1 Cordel | Aletria

Tradição oral e Literatura: #1 Cordel

Publicado: 16/01/2017

Entusiasta da tradição oral, a Aletria não disfarça seu apreço pela métrica, pelo ritmo e pelas temáticas ligadas à cultura popular e sua oralidade. Passeando pelas estantes da Aletria encontramos as famosas quadrinhas, tão ao gosto popular; os haicais, que vindos da cultura oriental encontraram solo fértil em terras brasileiras, onde foram reinventados aos montes; a literatura de cordel, que, com sua famosa redondilha maior, cantou e ainda canta o nordeste brasileiro; os tangolomangos e contos cumulativos, que sabem como ninguém encantar crianças e adultos em rodas de contação de histórias.

Para manter a pose de entusiasta da causa, o Blog da Aletria traz uma série de breves posts sobre autores, de língua portuguesa, que se tornaram verdadeiros mestres quando o assunto é literatura e tradição oral. Começamos falando um pouco sobre o mestre Leandro Gomes de Barros, considerado o pai da literatura de cordel no Brasil e autor do clássico folheto “O Soldado Jogador”, o primeiro cordel brasileiro que se tem notícia.

                                             

O paraibano Leando Gomes de Barros, nascido em 1865 na cidade de Pombal, escreveu modestos 240 folhetos e foi recordista de vendas, chegando a casa dos milhões de exemplares vendidos em algumas de suas obras! Leandro morreu de morte morrida aos 52 anos em Recife, vítima da gripe espanhola. Hoje seus cordeis ainda são impressos e reimpressos pelo Brasil afora, mostrando que os cordeis e suas redondilhas ainda são atuais, encantando leitores e ouvintes com seu ritmo gostoso de ouvir.

                                                              

                                                                                  Acima, xilogravura com o retrato de Leandro Gomes de Barros.

Fica a sugestão da Aletria: ler em voz alta “O Soldado Jogador” de Leandro de Barros! ;) Segue abaixo um trechinho do folheto, para ler na íntegra acesse AQUI o Fac-símile de uma edição bem antiga dessa folheto. 

 

Era um soldado francês

Que se chamava Ricarte

Jogador de profissão

E nunca foi numa parte


Que não trouxesse no bolso


O resultado da arte.

 

Os franceses nesse tempo


Tinham por obrigação


O militar ou civil


Seguir a religião


O Papa deitava a lei


Botava em circulação.

 

Ricarte, soldado velho


Com trinta anos de tarimba


Aonde ele achava jogo


De lasquinê ou marimba


Dizia logo: – Eu vou ver


Água na minha cacimba!

 

Um dia faltou-lhe o soldo


Pôs-se Ricarte a pensar


Onde podia haver jogo


Que ele pudesse jogar


Era domingo e a missa


Não havia de tardar.

 

Dinheiro não tinha um “xis”


A crédito ele nem falava,


Pois o soldado francês


Na taberna onde comprava


Só pegava no objeto


Porém depois que pagava.

 

Sobre a métrica da literatura de cordel:

A métrica mais comum na literatura de cordel brasileira é a redondilha maior que, trocando em miúdos, quer dizer que cada um dos versos possui sete sílabas poéticas. Os cordeis, em geral, são construídos em sextilhas, ou seja, possuem 6 versos em cada estrofe. Já as rimas dos versos em sextilhas populares, quase sempre, são construídos na forma ABCBDB. Em outras palavras, rimam-se o segundo, quarto e sexto versos. Observe nesse outro trecho de “O Soldado Jogador”:

 

Ricarte foi para a missa
 - A

Com grande constrangimento,
- B

Era obrigado a cumprir
- C

A lei do seu regimento
- B

Mas não podia afastar
- D

O jogo do pensamento. - B

 

Gostou? Na estante da Aletria também tem literatura de cordel! Salopão: um jumento do sertão, escrito pelo Mestre Fernando Limoeiro e ilustrado pelas xilogravuras de Tales Bedeschi, traz a tradição do cordel até em seu cuidadoso projeto gráfico, do designer Romero Ronconi, que reproduz as tradicionais cores rosa, verde, azul e amarelo das tradicionais edições de folhetos de cordel. Como se fosse pouco todo esse “cartaz”, Salopão: um jumento do sertão ainda foi selecionado para representar o Brasil na última Feira de Bolonha, a maior feira literária de obras infanto-juvenis do mundo! Haja responsabilidade, Salopão!

                                

                                

As duas imagens acima foram fotografadas por "Miúda Children`s Book" 

 

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