Tradição oral | Aletria

Tradição oral

Publicado: 24/10/2016

... de conto, em conto e reconto

Você sabia que contos, provérbios, canções, mitos e lendas também podem ser considerados patrimônio cultural?

Cada povo encontrou meios de transmitir conhecimentos e costumes e até de registrar momentos da própria história através da oralidade. A mídia mesmo teve suas origens assim. Ainda na antiguidade, as notícias eram comunicadas em praça pública para grandes multidões de maneira falada e, no boca a boca, se espalhavam por todo o povoado.

Artifícios como métrica, rima e ritmo são utilizados desde sempre na transmissão oral de informações, de forma a tornar essa transmissão mais eficiente e os conteúdos narrados mais fáceis de memorizar.

Algumas estruturas e formas de contar foram se constituindo entre os povos através da repetição do conteúdo de maneiras específicas, transformando-se em verdadeiros repertórios e a esses repertórios passados de geração a geração dá-se o nome de tradição oral.

E o texto de hoje é um conto acumulativo, também conhecido como lengalenga, prática bem comum da tradição oral.

 

O menino e a vó gulosa

O menino só possuía um guiné (galinha d'angola). Numa ocasião de necessidade matou o guinezinho e saiu para adquirir farinha. Quando voltou, a avó, que morava com ele, comera o guinezinho inteiro. O menino reclamou muito e avó lhe deu um machadinho.

Saiu o menino pela estrada e encontrou o pica-pau furando uma árvore com o bico.

– Pica-pau! Não se usa mais o bico para cortar pau. Usa-se um machadinho como esse…

- Oh! Menino! Empreste-me o machadinho.

O menino emprestou o machadinho ao pica-pau e este tanto bateu que o quebrou.

O menino recomeçou a choradeira:

- Pica-pau, quero meu machadinho que minha avó me deu, matei meu guinezinho e minha avó comeu.

O pica-pau deu ao menino um cabacinho de mel de abelhas. O menino continuou a viagem e lá adiante viu o papa-mel lambendo um barreiro que só tinha lama.

– Papa-mel! Não se usa mais beber lama. Usa-se beber um melzinho como esse…

- Oh! Menino! Me dê um pouquinho desse mel!

Que pouquinho foi esse que o papa-mel engoliu todo o mel e ainda quebrou o cabacinho. O menino abriu a boca no mundo, berrando. O papa-mel presenteou-o com uma linda pena de pato. O menino seguiu.

Lá na frente encontrou um escrivão escrevendo com uma pena velha e estragada.

– Escrivão! Não se usa mais escrever com uma pena estragada como essa e sim com uma boa e novinha como esta aqui…

- Oh! Menino! Empresta-me tua pena…

O bobo do menino emprestou a pena. Num instante o escrivão estragou a pena. O menino caiu no pranto. O escrivão lhe deu uma corda.

Depois de muito andar, o menino avistou um vaqueiro tentando laçar um boi com um cipó do mato.

– Vaqueiro! Não se usa mais laçar boi com cipó e sim com uma corda como essa.

– Oh Menino! Me empresta essa corda.

O menino, vai, emprestou. Num minuto o vaqueiro laçou o boi mas rebentou a corda.

Novo chororô do menino. O vaqueiro lhe deu um boi.

O menino viu a onça, uma enorme, comendo um resto de carniça.

– Onça! Não se usa mais comer carniça e sim um boi como esse meu!

- Oh! Menino! Me dê o seu boi!

E comeu o boi. O menino ficou no soluço, choramingando e pedindo o boi:

- Onça, me dê meu boi que o vaqueiro me deu; o vaqueiro quebrou minha cordinha, a cordinha que o escrivão me deu; o escrivão quebrou minha peninha, a peninha que o papa-mel me deu; o papa-mel bebeu meu melzinho, o melzinho que o pica-pau me deu; pica-pau quebrou meu machadinho, o machadinho que minha avó me deu; matei meu guinezinho e minha avó comeu!

A onça como não tinha coisa alguma para dar ao menino, disse, rosnando:

- O boi foi pouco e vou comer você!

E comeu o menino.

*conto extraído do site http://jangadabrasil.com.br/

(CASCUDO, Luís da Câmara. Contos tradicionais do Brasil)

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