Tradição oral | Aletria

Tradição oral

Publicado: 03/11/2016

... de conto em conto e reconto

Você sabia que contos, provérbios, canções, mitos e lendas também podem ser considerados patrimônio cultural?

Cada povo encontrou meios de transmitir conhecimentos e costumes e até de registrar momentos da própria história através da oralidade. A mídia mesmo teve suas origens assim. Ainda na antiguidade, as notícias eram comunicadas em praça pública para grandes multidões de maneira falada e, no boca a boca, se espalhavam por todo o povoado.

Artifícios como métrica, rima e ritmo são utilizados desde sempre na transmissão oral de informações, de forma a tornar essa transmissão mais eficiente e os conteúdos narrados mais fáceis de memorizar.

Algumas estruturas e formas de contar foram se constituindo entre os povos através da repetição do conteúdo de maneiras específicas, transformando-se em verdadeiros repertórios e a esses repertórios passados de geração a geração dá-se o nome de tradição oral.

Novembro vai chegando devagarinho e para saudar o mês da Consciência Negra, o Blog da Aletria traz A lenda do tambor africano. Confira aí!

A LENDA DO TAMBOR AFRICANO

Corre entre os Bijagós, da Guiné, a lenda de que foi o Macaquinho de nariz branco quem fez a primeira viagem à Lua. A história começou assim:

Nas proximidades de uma aldeia, os macaquinhos de nariz branco, certo dia, de que se haviam de lembrar? De fazer uma viagem à Lua e trazê-la para baixo, para a Terra.

Ora, numa bela manhã, depois de terem em vão tentado encontrar um caminho por onde subir, um deles, por sinal o mais pequeno, teve uma ideia: encavalitarem-se uns nos outros. Um agora, outro depois, a fila foi-se erguendo ao céu e um deles acabou por tocar na Lua. Embaixo, porém, os macacos começaram a cansar-se e a impacientar- se. O companheiro que tocou na Lua nunca mais conseguia entrar. As forças faltaram-lhes, ouviu-se um grito, e a coluna desmoronou-se. Um a um, todos foram arrastados na queda e caíram no chão. Apenas um só, só um macaquinho, por sinal o mais pequeno, ficou agarrado à Lua, que o segurou pela mão e o ajudou a subir.

A Lua olhou-o com espanto e tão engraçadinho o achou que lhe deu de presente um tamborinho. O Macaquinho começou a aprender a tocar no seu tamborinho e por longos dias deixou-se ficar por ali. Mas tanto andou, tanto passeou, tanto no tamborinho tocou, que os dias se passaram uns atrás dos outros e o macaquinho de nariz branco começou a sentir profundas saudades da Terra e das suas gentes. Então, foi pedir à Lua que o deixasse voltar.

— Para que queres voltar?

— Tenho saudades da minha terra, das palmeiras, das mangueiras, das acácias, dos coqueiros, das bananeiras.

A Lua mandou-o sentar no tamborinho, amarrou-o com uma corda e disse-lhe:

— Macaquinho de nariz branco, vou te fazer descer, mas toma tento no que te digo. Não toques o tamborinho antes de chegares lá abaixo. E quando puseres os pés na terra, tocarás então com força para eu ouvir e cortar a corda. E assim ficarás liberto.


O Macaquinho, muito feliz da vida, foi descendo sentado no tambor. Mas a meio da viagem... Oh! Não resistiu à tentação. E vai de leve, levezinho, de modo que a Lua não pudesse ouvir, pôs-se a tocar o tambor tamborinho. Porém, o vento soltando brandos rumores fazia estremecer levemente a corda.

Ouviu a Lua os sons compassados do tantã e pensou: 'O Macaquinho chegou à Terra'. E logo mandou cortar a corda. E eis o macaquinho atirado ao espaço, caindo desamparado na ilha natal. Ia pelo caminho diante uma moça cantando e balançando-se ao ritmo de uma canção. De repente viu, com espanto, o infeliz estendido no chão. Mas tinha os olhos muito abertos, despertos, duas brasas produzindo luz. O tamborinho estava junto dele. E ainda pôde dizer à moça que aquilo era um tambor e o entregava aos homens do seu país.

A moça, ainda não refeita da surpresa, correu o mais velozmente que pôde a contar aos homens da sua raça o que acabava de acontecer. Veio gente e mais gente. Espalhavam-se archotes. Ouviam-se canções. E naquele recanto da terra africana fazia-se o primeiro batuque ao som do maravilhoso tambor. Então os homens construíram muitos tambores e, dentro em pouco, não havia terra africana onde não houvesse esse querido instrumento. Com ele transmitiam notícias a longas distâncias e com ele festejavam os grandes dias da sua vida e a sua raça.

O tambor tamborinho ficou tão querido e tão estremecido do povo africano que, em dias de tristeza ou em dias de alegria, é ele quem melhor exprime a grandeza de suas almas.


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Conto registrado por Manuel Ferreira, escritor de Guiné-Bissau. Extraído do Editorial do Ministério da Educação: No Tempo em que os Animais Falavam, Colecção Novas Leituras Africanas de Língua Portuguesa – Vol. 5.

 


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